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ARTIGO

Meu nome não é Prefácio

Adaltro Prochnov Nunes

Tenho acompanhado pouco os jornais e, como sempre, de modo meio displicente, mas com a atenção suficiente para perceber que editoriais têm tratado com certa frequência de questões relacionadas à educação. Talvez seja só influência da época, ou seja: fim das férias de verão, ressaca do carnaval ou o ímpeto para tratar de algum assunto oportuno a somar-se ao sempre prestigiado horóscopo do dia.

Veja, essa consideração analítica não passa de mera hipótese, já que admito minha inaptidão para examinar as causas desse ou de qualquer outro fenômeno midiático. O que importa, mesmo assim, é a constatação de que há certa regularidade quanto à presença de assuntos ligados à educação nessa época do ano. Somados estes aos problemas causados pela pandemia da Covid-19, alguns jornais chegam a conter mais de uma matéria sobre um assunto e outro.

No mesmo jornal, pode-se encontrar com facilidade na mesma edição uma reportagem sobre merenda escolar e outra sobre a necessidade de melhorar os índices da educação. Para tanto, por exemplo, discutem de forma recorrente a necessidade e a importância da informática e do uso das novas tecnologias dela derivadas para superar os desafios da Pandemia.

Consideramos, entretanto, que algo está meio esquecido ou, digamos assim, fora de moda: a valorização da leitura como instrumento indispensável para a formação humana. Lembremos que Nietzsche, em sua amaldiçoada obra Vontade de Potência, escreveu uma passagem em que afirmou que "a leitura é a nutrição dos cérebros". Por outro lado, o mesmo Nietzsche teceu severa crítica aos cérebros excessivamente nutridos dos escolásticos - que atingiam certo grau de obesidade mórbida que os impossibilitava de qualquer criatividade.

Considero válida a analogia de Nietzsche mesmo na atualidade de tantas ferramentas e recursos para o aprimoramento intelectual. E constato que a imprensa não aponta esse melhor modo de alimentarmos nossas mentes. Ou seja, dentre as prioridades pedagógicas, o incentivo à boa leitura quase que não consta. Há casos em que indivíduos jovens dotam-se já de corpos bem nutridos, mas padecem, na verdade, de um mal inverso ao dos escolásticos, com o que seus cérebros [mentes] estão subnutridos pela falta de leitura. Ora, a verdade é que o risco de uma possível inanição pode impedir a criatividade.

Proliferam-se as fake news para complicar a escolha do que seja boa leitura, e sem boa leitura a ração de conhecimentos que recebem os jovens permanecera péssima, compondo-se, principalmente, de informações superficiais que serão imediatamente dispersadas sem digestão, como em um organismo em estado de profunda desidratação.

Sugerimos, há algum tempo, que alunos do ensino médio lessem um verbete em uma enciclopédia, mas não obtive o resultado esperado. Muitos deles me informaram, na aula seguinte, que tinham procurado e que não encontraram. Surpreso, resolvi investigar o motivo dessa estranha dificuldade. Acabei descobrindo que os mesmos acessavam a página de pesquisa do Google e informavam como palavra-chave o termo 'verbete'. Lógico, os resultados em links relacionados os conduziam para longe do que havíamos solicitado.

Assim, pasmados, descobrimos que alguns não sabiam ainda o que é um verbete e que possivelmente nunca tinham consultado um dicionário ou uma enciclopédia. Tentamos fazer algo sabendo que o problema da desnutrição mental se alastra com a mesma velocidade da terrível epidemia. Quer dizer, muitos dos alunos [pacientes] recebem orientação e medidas de evitar o vírus, mas não sobre como debelar em si a desnutrição mental.

Diante da urgência do tratamento, apelamos para o antigo remédio: receitamos leitura; não na internet, mas se na internet, dos velhos e bons livros. Fomos bastante convincentes e alguns alunos anotaram as referências informadas e foram em busca de algum exemplar. Não contive a surpresa e a alegria quando vi um deles de posse de uma bela encadernação verde onde se destacavam letras douradas.

Elogiei o seu interesse e perguntei-lhe em seguida como fora a leitura, se estava gostando, se estava entendendo, se tinha dúvidas, sobre qual assunto estava lendo etc. O aluno respondeu animado que estava tudo certo e que estava lendo sobre 'prefácio'. Sem deixar transparecer nem mesmo o riso contido, expliquei-lhe o que é um prefácio. Contudo, desolado, controlei a vontade de sugerir que não escolhesse esse nome para um filho.

Como é comum entre os que trabalham com educação, errei mais uma vez, já que me esqueci de diagnosticar de modo absoluto o que estava ao alcance da compreensão possível: remédio na dose errada, além de não ser eficaz, pode causar sérios danos. Esperamos que nosso pupilo não tenha morrido na praia e que eu tenha aprendido a reincidente lição.


Adaltro Prochnov Nunes

Professor EBTT IFC-Campus Blumenau

Aluno de doutorado do PPG - Filosofia da UFSC







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