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MEMÓRIA

O sol no Brasil

História da Família Novak em terras brasileiras começa com a imigração dos ancestrais europeus

Bruna Werle
Foto: Arquivo Pessoal
Roque Novack, Eugênia Novak, Anita N. Pereira, Olga S. França, Daniel Novak, Beti Novak, Joana Novak, Clair Novak, Rosane Novak e Nilton Novak

Desde criança, Anita Novak Pereira ouvia histórias de sua avó sobre seus antepassados que chegaram no Brasil e na região de Mafra e Rio Negro fixaram moradia. Memórias que ainda emocionam, que trazem consigo sofrimento e dor, mas também histórias de superação, de fé, coragem e acima de tudo, aprendizado.

Nascida em Rio Claro, hoje, município de Major Vieira, casada com Alenir Pereira, veio para Canoinhas aos 12 anos de idade, trazida pela professora Laila Isphair (depois Bossi) para estudar. Aqui fez o, então, Ginásio no Colégio Sagrado Coração de Jesus e dois anos do ensino normal na Escola Almirante Barroso, pois tinha o desejo de lecionar.

"Voltei ao Rio Claro como professora. Também trabalhei meio ano na Serra do Lucindo, após o casamento. Já concursada em 1962, assumi a Escola Estadual Drausio Celestino Cunha, com 60 alunos. Em dois anos, já eram 120 alunos. Vinham crianças das redondezas, há 45 quilômetros da escola, a pé, a cavalo e de carroça.

Em Rio Claro, seu marido trabalhava com seu irmão, Antonio, e o sogro, também Antonio, nas casas de comércio e transporte. Lá nasceram seus três primeiros filhos (Regina Célia, Jo´se Ivan e Francisca Reni, a Xica). Depois de oito anos como professora, mudaram-se para Canoinhas e Anita voltou a estudar, enquanto o esposo dedicava-se ao comércio e transporte de cereais e suínos para São Paulo.

Aqui nasceram os outros três filhos: Siomara, Wilson e Elaine (In memoriam). E após 16 anos dedicados à Educação, Anita decidiu para de lecionar para ajudar o marido no ramo do comércio, indústria e exportação de Erva Mate e Cereais. "Mais tarde fui coordenadora do Ipesc e vereadora, trabalhando mais dois anos na Assistência Social do Estado", conta Dona Anita.

Hoje, aos 76 anos, ela se dedica à família, sendo avó de nove netos e um bisneto, e na produção do livro sobre os 190 anos da imigração Alemã para Rio Negro e Mafra, dos seus antepassados e a sua trajetória de vida, com o título, ainda improvisado: "O sol no Brasil".

Dia de luta, de luto e de glória

Descendente das famílias imigrantes Grein (de Luxemburgo), Kraus e Hack (da Alemanha), pelo lado materno, e Kalabaide (austríaco) e Novak, vindos da Ucrânia, pelo lado paterno, Anita se debruçou nas memórias que ouvia dos antigos e de (muita) pesquisa, para reescrever as histórias dos imigrantes que povoaram a nossa região.

Nas primeiras décadas do século XIX, durante o reinado de Dom Pedro VI, o governo brasileiro enviou à Europa 'agenciadores', com o objetivo de atrair colonos para o país com a promessa terras, casas, sementes e animais, além de uma certa quantia em dinheiro para cada dependente.

"Diante das dificuldades que viviam na Europa na época, e com a esperança de uma Terra Prometida, meus ancestrais embarcaram em Bremen, na Alemanha, em julho de 1828, no navio Charlote Louise com destino ao Rio Grande do Sul. Porém, no Rio de Janeiro, foram convencidos pelo Barão de Antonina a se fixar em Rio Mafra", conta Anita.

No primeiro grupo a desembarcar em terras brasileiras estavam os tataravôs de Anita, Petter Grein e Angela Ernzen. Depois de sete meses de viagem marítima, sendo quatro meses nas alfandegas, e um mês de viagem a pé de Antonina, com as bagagens em carroções, chegaram, em 6 de fevereiro de 1829, ao destino Rio Mafra.

Em junho/julho do mesmo ano, chega outra leva de imigrantes que ficaram no Rio de Janeiro. Entre eles Nicolau Becker, Henri Graneman, Niclau Bley, com sua mãe e os nossos ancestrais Mathias Hack e Ana Criz, e Francisco Kraus e Izabel Mertem com os filhos.

Ao chegarem no destino, tiveram uma grande decepção: foram abandonados a própria sorte em terras desconhecidas e ainda não povoadas. As promessas, a princípio, não foram cumpridas. "Sem cura religiosa, como atendimento e orientação, e diante das dificuldades, alguns homens foram trabalhar no corte de pedras na Lapa, alguns ficaram cuidado da família, enquanto outros seguiam as tropas de Viamão de Rio Grande do Sul a Sorocaba, em São Paulo", explica.

A família Hack se dedicou ao tropeirismo levando a produção local, como gado, charque, banha e trazendo tecidos, sal, açúcar, querosene e ferramentas. Os tropeiros também eram os comunicadores da época, levavam e traziam as notícias do país. "Meu avó José Hack, conhecido como Juca, foi tropeiro, e por isso, minha avó sempre estava informada sobre os acontecimentos", lembra Anita.

Mais tarde, com as terras demarcadas, a maioria em Mafra, nos Avencais de Cima, do Meio, que hoje é a comunidade de Santa Cruz, e Avencal de Baixo, outros homens, entre eles Petter Grein, iniciaram o desmate e o cultivo da terra. Três anos depois, eles já colhiam os frutos dos seus trabalhados. Um senso realizado na região conta a produção de cereais e porcos. "Eles eram católicos de muita fé e muito trabalhadores. Era Deus acima de tudo", constata Anita.

No entanto, a região ainda era povoada pelos índios e os conflitos entres os povos eram constantes durante todos o tempo e que viveram na região, em torno de 90 anos. Além dos confrontos com os indígenas, os colonos europeus vivenciaram três guerras, uma vez que Rio Mafra era a fronteira entre a Província de São Paulo, que incluía o Paraná, e a Província do Rio Grande do Sul, da qual Santa Catarina pertencia.

Sendo a Revolução Farroupilha, de 1835 a 1845, a Revolução Federalista, entre 1893 a 1895, e a Guerra do Contestado, de 1912 a 1916. "Durante a Revolução Federalista, minha avó Izabel Grein Kraus, depois Hack, tinha nove anos e mesmo depois de idosa, ainda lembrava dos 'tec tec' dos tiros. Já a do Contestado, foi a mais cruel e abrangente, pois atingiu diretamente as famílias", relata.

Terminadas as Guerras, no começo de 1917 os bisavôs de Anita, José Kraus e Maria Luiza Grein, deixaram as terras de Rio Mafra, depois de 88 anos, migraram com seus filhos, para Rio Claro, hoje, município de Major Vieira. "No ano seguinte, eles enfrentaram a Gripe Espanhola, que matou metade da população mundial, porém nenhum membro da família foi afetado", conta.

As novas perspectivas de vida fizeram com que em Rio Claro, a família progredisse, podendo doar terrenos para a Igreja e o Cemitério. Ajudaram na construção de duas igrejas, e por 50 anos serviram refeições para os padres, bispos e freiras.

As memórias não apagadas

"Eu que há alguns anos, vinha juntando os fragmentos das lembranças e das histórias contadas pela minha mãe Filomena, e em especial, ela minha avó Izabel, tomei a iniciativa de escrever a história da família", conta Anita.

Mas ela não parou somente no livro. Com as informações sobre o antepassado Grein, a família descobriu que era possível tirar a cidadania Luxemburguesa. Em 2018, o governo de Luxemburgo anunciou a abertura do processo de solicitação de cidadania para brasileiros.

A primeira etapa, que era reunir todos os documentos necessários para o requerimento já foi concluída. Ao todo, são 58 pessoas da família que se candidataram para ter a cidadania. O próximo passo é a presença no país europeu para a conclusão e a emissão do documento. No último domingo do mês de junho, 29, a família se reuniu para comemorar a grande conquista. "Hoje, o que parecia tão distante já é uma realidade!", alegra-se Anita.


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