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Tia Irma, mãe de todos

Pelas mãos de Irma Augusta Blosfeld, mais de mil bebês vieram ao mundo; além das novas vidas, parteira de Canoinhas fez nascerem mães

Thaís Guimarães de Lima/CN
Foto: Thaís Guimarães/CN

Reportagem publicada originalmente na versão impressa do Correio do Norte, em 11 de maio de 2018


"Tia, me acuda".

"Calma, filha. Teu neném já vai nascer. Fica calma que ele já vai nascer".

Era assim, transmitindo confiança, com uma fala tranquila seguida de um abraço reconfortante, que Irma Augusta Blosfeld acalentava as futuras mamães que entravam aflitas na sala de parto do Hospital Santa Cruz de Canoinhas. "Era o que elas precisavam naquele momento", conta a parteira, que com carinho e esmero, ajudou boa parte das canoinhenses a darem à luz.

Foram 30 anos dedicados ao ofício e mais de mil bebês que passaram pelas suas mãos. O número exato, ela não sabe dizer. "Eu devia ter contado, né", constata. Mas não era com números que ela se preocupava - em sua rotina, lidava com vidas.

Foi oportuno entrevistar dona Irma na semana do Dia das Mães. A conversa foi precedida de uma entrega dos Correios - os mimos das filhas que hoje moram em Paulínia (SP) chegaram antecipados em uma caixa decorada. Presentes e cartões escritos a mão, numa expressão de amor da prole que viu a atenção da matriarca se multiplicar para milhares de outros filhos. Aqueles tantos dos quais participou do nascimento e para os quais deixou um pouquinho do sentimento materno.

Era sua vocação


Quando Irma quis trabalhar fora, bateu à porta do Hospital Santa Cruz, e lá trabalhou até a aposentadoria (foto: Thaís Guimarães/CN)

Quando criança, Irma manifestou interesse pela enfermagem. O pai a repreendeu e disse que ela jamais trabalharia em um hospital. Depois de adulta, por coincidência ou ironia do destino, foi justamente em um hospital onde ela bateu à porta procurando emprego. Os quatro filhos estavam crescendo e ela não queria mais ser dona de casa. Uma semana depois, recebeu uma oportunidade para trabalhar na cozinha do Hospital Santa Cruz. Não titubeou.

Não demorou a perceberem que Irma levava jeito com as pessoas. "Disseram que eu tinha um jeitinho especial de cuidar dos doentes, e sugeriram que eu estudasse e praticasse. Fiz curso depois do trabalho e, depois de seis meses, eu já passava da cozinha para a enfermagem", revela.

Logo, encarava o primeiro desafio. Irma estava sozinha na maternidade quando um casal apareceu em prantos com o filho nascendo no banco do táxi. "Eu ia ligar para o médico, mas quando vi já não tinha mais tempo. E no dia 6 de janeiro de 1972, eu fiz meu primeiro parto. Era um menino saudável, bonito", lembra a parteira. A experiência foi tão marcante, que nesta situação de emergência, Irma teve certeza de sua vocação. Se encontrou na maternidade e não saiu mais de lá.

Numa época em que as cesarianas eram restritas a casos de emergência e os partos normais muito mais comuns - como deveria ser - cabia à enfermagem cuidar dos nascimentos, se as condições estivessem normais. "Nascia tudo pela nossa mão", comenta Irma, que só acionava o médico em casos necessários. Se havia algo que não tinha hora para acontecer, era nos plantões na maternidade. "Às vezes ia comer e precisava largar a comida porque chegava uma gestante. Quando voltava o prato estava frio, sem gosto", se diverte ao recordar.

Revela que já chegou a ocorrer oito partos num único dia. Nunca reclamou. "Era estressante sim, e uma grande responsabilidade. Pois são duas vidas que estão na sua mão. Mas quando você vê o beber nascer, e vê a expressão da mãe, aquele momento tão bonito... isso supera qualquer coisa".

Ao longo das décadas de trabalho, a parteira deparou-se com complicações, mas nenhum episódio negativo marcou sua trajetória. Ao contrário, guarda com carinho da memória o dia em que uma médica do hospital pediu que ela a ajudasse no parto do seu filho - só queria ela -, num parto de cócoras repleto de simbolismo, em que o pai participou para cortar o cordão umbilical.

O motivo que fazia muita gente apreciar a presença de Irma estava associado àquele chamado jeitinho especial de conduzir os atendimentos. Para eles era a "tia Irma", que tinha o dom de acalmar e trazer segurança aos acamados, que chagavam a chamar por ela. "Se o paciente já está num momento de fragilidade, eu chegar de um jeito agressivo só iria piorar, né?", constata.

Para sempre tia Irma


Algumas das homenagens recebidas em reconhecimento ao trabalho exercido em Canoinhas (Foto: Thaís Guimarães)

O tempo de dedicação e jeito próprio de cuidar dos pacientes renderam a Irma diversas homenagens. No ano em que encerrou suas atividades no Hospital, foi reconhecida como a melhor enfermeira da entidade (1997). Em 2004, a descendente de alemães que nasceu em Cruz Machado e instalou-se ainda criança em Canoinhas recebeu o título de cidadã honorária da cidade que escolheu para viver. A Câmara de Vereadores concedeu a homenagem em reconhecimento aos serviços prestados pela parteira à comunidade canoinhense.

Já faz mais de 20 anos que Irma está aposentada, mas o dia a dia integrando a equipe do hospital, que considera ter sido uma verdadeira família, ainda está vivo em suas lembranças. "Ainda sonho que estou fazendo parto", revela. "Às vezes cruzo com alguém na rua que vem me abraçar e diz 'tia Irma, como a senhora está? A senhora fez o parto do meu filho. Hoje ele está com 40 anos'. Eu tomo um susto ao pensar no tempo que já passou e na quantidade de pessoas que estão por aí, que passaram pelas minhas mãos na maternidade", reflete.

Para amenizar a saudade, vai toda semana ao Hospital Santa Cruz, onde revê antigos colegas de trabalho, revive um pouco o clima do que foi sua segunda casa por três décadas e presta um dos vários trabalhos voluntários que integra atualmente. Além do Hospital, também é voluntária ativa na Igreja Luterana e na Rede Feminina de Combate ao Câncer. Tem compromissos quase diariamente, isso aos 82 anos de idade. "Não me sinto velha. Trabalhei a vida toda, por que vou parar agora?".

Ela segue sendo a tia Irma - parteira que, além das vidas que trouxe ao mundo, fez nascerem mães. A quem compartilha desse infinito sentimento materno, ela deixa seu recado: "Tia Irma deseja a todas as mamães que atendeu um Feliz Dia das Mães".







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