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Saúde Pública

Cancelamento das neurocirurgias pode causar mortes em Canoinhas

08 Março 2019 17:37:00

'Não estou pedindo que a neurocirurgia volte, estou alertando o que pode ocorrer com o cancelamento', disse Dr. Andrei, especialista em neurocirurgia durante entrevista ao CN

Elisandra Carraro
Foto: Elisandra Carraro/Edição e montagem: Marcelo Gonçalves
Zenici e Dr. Andrei debatem o tema da importância da neurocirurgia no município

Desde que o anúncio da não inclusão da especialidade em neurocirurgia nos editais de sobreaviso foi feito em Canoinhas, a população se alarmou e ficou preocupada com o que pode acontecer com este possível cancelamento. A prefeitura lançou o editou no início da semana, mas não incluiu a especialidade de neurocirurgia que há seis anos foi implantada no município e já salvou muitas vidas.

Em meio ao tumulto gerado pela questão o CN conversou com a secretária de Saúde Zenici Dreher Herbst e com o neurocirurgião Dr. Andrei Leite de Morais responsável por atender essa especialidade na região. Atualmente o município oferece por meio do hospital Santa Cruz de Canoinhas (HSCC) sete especialidades médicas sendo elas: neurocirurgia, neurologia, pediatria, ortopedia e traumatologia, anestesiologia, clínica médica e cirurgia geral. Para essas especialidades há o custo de R$ 31 mil ao HSCC que é repassado pelo município, e há sempre um médico de sobreaviso, que ao receber uma chamada para atender a uma das especialidades deve ir imediatamente.

A especialidade de neurocirurgia em questão foi implantada em 2012 no município quando o então Deputado Estadual Antonio Aguiar (PSD) destinou R$ 800 mil para a compra de equipamentos de última geração, a fim de obter o necessário para a realização das neurocirurgias. E desde então Dr. Andrei vem atuando realizando procedimentos na área de neurocirurgia e neurologia e, nestes 6 anos de atuação já realizou 450 cirurgias, sendo que mais da metade delas foi custeada pelo SUS, por isso, Dr. Andrei explica o porque acredita ser importante que a especialidade seja mantida.

"Quando foi montando a especialidade de neurocirurgia, foi necessário provar a alta complexidade da especialidade, para que fosse mantida pelo SUS, na época foi preparado toda a documentação e disseram que a neurocirurgia deveria estar junto com ortopedia, mas ortopedia não quis entrar na alta complexidade, e por isso, acabou não sendo aceito para custeio total das cirurgias via SUS. Acredito que por falta de força política não comprovamos a alta complexidade, pois, Mafra que tem menos equipamentos que nós, com força política, conseguiu junto ao governo do estado comprovar essa necessidade e gerar lucros com as cirurgias", destacou o médico.

Andrei explica que os equipamentos presentes no hospital são de muita qualidade, afirmou que o microscópio destinado as neurocirurgias é um dos melhores do mundo e, que se o investimento para compra total dos equipamentos fosse feito hoje daria em torno de 1 milhão de reais. Andrei também enfatiza que sem o uso da neurocirurgia esses equipamentos que tanto custaram para serem adquiridos ficarão sem utilidade porque são específicos e só podem ser usados na neurocirugia.

"Todo o procedimento feito via SUS gera 30% de prejuízo aos cofres públicos a não ser em duas especialidades: neurocirurgia e cirurgia cardíaca. Por isso a neurocirurgia e a cirurgia cardíaca são a menina dos olhos de cada hospital, e aqui em Canoinhas tem uma destas especialidades, o que precisa para que possa gerar lucro ao hospital é comprovar a alta complexidade para que o SUS pague por valores que gerem o lucro. Pelo número de cirurgias realizadas todo mês, se fosse comprovada a alta complexidade e o SUS arcasse com os custos a própria cirurgia pagaria as despesas do hospital. Está faltando planejamento e gestão para assistir ao povo", disse Andrei.

Transferência para Mafra

Outra discussão em questão foi o fato de que agora com o cancelamento as pessoas podem ser transferidas para Mafra, que por ter classificação de ata complexidade se tornou referência, o fato é que diversos acidentes ocorrem todos os dias, e muitas vezes, não dá tempo do paciente chegar até Mafra.

"Cada minuto é fundamental para salvar a vida de um paciente e, todo o ano foi renovado devido à importância desse procedimento para salvar vidas, como é caso de muitas pessoas que foram salvas pela neurocirurgia. Esse ano, por conta de não ter ainda a alta complexidade, a justificativa do município foi de que não gerava lucros e tiveram que aumentar o valor para os obstetras, devido a isso, teria que esperar até a terceira semana de março para ver a inclusão ou não no sobreaviso. Então eu não estou pedindo para que a neurocirurgia volte para gerar lucros para mim, mas sim, alertando de quantas vidas podem ser perdidas com o cancelamento", afirmou Andrei.

Lado B - Prefeitura justifica o cancelamento

Já a secretária de Saúde do município Zenici, afirma que todas as especialidades são de suma importância para a população e, que depende da dor e do problema de saúde de cada um. Ela afirma que nesta área, atualmente o município custeia o sobreaviso das especialidades de neuroclínica com o valor de R$ 31mil/mês e de neurocirurgia R$ 31mil/mês sendo que o mesmo médico está nas duas escalas para atendimento no mesmo horário, portanto, em situações de urgência e emergência uma delas sempre ficará descoberta.

"Os editais das especialidades foram lançados separadamente desta vez devido os problemas de alguns médicos não comparecerem na UPA 24h ou no HSCC quando acionados pelos médicos plantonistas, sendo que neste caso de um contrato para todas as especialidades, quando há penalidades envolve todos os médicos. A proposta é tratar separadamente cada especialidade para não prejudicar os profissionais que são comprometidos com o serviço, e o hospital conta com Centro Cirúrgico e certamente pode contratar quantas especialidades entender necessário, inclusive há outras especialidades de suma importância que fazem parte do corpo clínico do hospital e não fazem parte do sobreaviso, por exemplo, cardiologia, angiologia, oftalmologia, otorrinolaringologia, dentre outras. Entendo que este movimento junto à imprensa e a população são importantes, mas temos que deixar claro que somos obrigados por lei a realizar licitações para contratação dos serviços" enfatizou Zenici.

Dr. Andrei afirma que de todas as vezes que foi chamado atendeu ao pedido de sobreaviso e nunca deixou de atender a nenhum paciente. "Pode perguntar aos meus pacientes, o nível do meu atendimento e se alguma vez eu deixei de atender alguém. Diversas vezes eu deixei tudo de lado, família, lazer, meu descanso e fui socorrer pacientes quando chamado", destacou.

Por fim Zenici afirma: "É de suma importância esclarecer que o município quer manter as especialidades tanto de neurologia quanto de neurocirurgia para atendimento à população, porém, conforme legislações, pois, não vemos legalidade em um médico estar em duas escalas ao mesmo tempo e recebendo por duas especialidades que são diferentes. Temos sim a obrigação de atender da melhor forma possível à população, assim como ao expor os fatos sentimos a obrigação de esclarecer que a proposta é ampliar os serviços e não reduzir. Assim que os contratos para as especialidades estiverem assinados, inclusive o de neurologia, tornaremos pública as demais decisões" finaliza.

Na próxima segunda-feira, dia 11, na Câmera de Vereadores, às 19h haverá uma manifestação organizada por pacientes de neurocirurgia, para reivindicar a especialidade. Toda a comunidade é convida a participar.


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Foto: Elisandra Carraro/Edição e montagem: Marcelo Gonçalves
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