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Luto

Canoinhas se despede de Ernestina Gonçalves, uma das fundadoras da Apoca

Com uma vida dedicada a ajudar os pacientes oncológicos da região, Ernestina deixa um legado de solidariedade e amor ao próximo

Ao amanhecer desta quarta-feira, 23, os canoinhenses receberam uma notícia daquelas entristece toda a comunidade. Faleceu uma das fundadoras da Associação dos Pacientes Oncológicos de Canoinhas e Região (Apoca), Ernestina de Lima Gonçalves. Na instituição, ela foi presidente e uma das grandes responsáveis por fazer da Apoca, uma referência no atendimento aos pacientes com câncer.

Seu corpo será velado na Capela São Francisco, no Campo d'Água Verde.

Relembre a matéria publicada pelo CN no ano passado, onde Ernestina relatou sua luta contra o câncer e a criação da Apoca

  • *Por Bruna Werle
O diagnóstico lhe foi dado pela madrugada, especificamente ás 2 horas da manhã, no hospital Santa Cruz de Canoinhas. Aos 45 anos, a perspectiva de vida, dada pelo médico, era de apenas dois meses. Com seis filhos em casa, Ernestina decidiu não esmorecer e lutar contra o câncer de mama. Na época, viajava para a capital paranaense, para fazer as sessões de quimioterapia e radioterapia no Hospital Erasto Gaertner.

"Não existia Apoca naquela época, e eu não tinha a quem recorrer, para pedir ajuda ou um encaminhamento. Eu só tinha uma carta do médico, mais nada. Eu pensava muito em como contar para a minha família. Quando você descobre que está com câncer, você pensa primeiro na família. Eu pedi bastante a Deus, que eu tivesse uma recuperação para terminar de criar meus filhos", relata Ernestina.

Ernestina de Lima Gonçalves conta que foram meses de sofrimento fazendo o tratamento, sem perder a fé. "É como se a gente apanhasse todos os dias. Foi como se tivessem jogado a gente no buraco, e estivessem tampando já. A gente tem de ter fé e esperança e sair daquele buraco, ao menos, tentar sair. Não é fácil. Eu me senti como Jesus Cristo indo para o calvário, Ele sabia que ia morrer. Mas nessa luta você pode ter vitórias. E a gente luta para não morrer", desabafa.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), atualmente, 7,6 milhões de pessoas no planeta morrem em decorrência da doença a cada ano. Uma pesquisa elaborada pelo instituto aponta que a estimativa para cada ano do triênio 2020-2022, ocorrerão 625 mil casos novos de câncer (450 mil, excluindo os casos de câncer de pele não melanoma). O câncer de pele não melanoma será o mais incidente (177 mil), seguido pelos cânceres de mama e próstata (66 mil cada), cólon e reto (41 mil), pulmão (30 mil) e estômago (21 mil).

A rotina, que antes era um hábito comum, mudou. De casa para o hospital, do hospital para a casa dos parentes, longe dos filhos. Exames e consultas também passaram a ser rotineiros. Enfermeira de carreira, que sabia lidar com a dor dos pacientes, passou a sentir dor o dia todo, todos os dias. "A vida dá um salto. Ela se transforma de uma maneira que nem a gente entende direito. A gente passa a conviver com a dor e o mal-estar constantes", conta.

O câncer que Dona Ernestina teve, é uma das principais causas de morte entre mulheres no Brasil. Uma enfermidade, que se diagnosticada precocemente, tem um tratamento rápido e menos doloroso. Foi pensando em sensibilizar mulheres sobre a importância de realizar o exame para a detecção precoce do câncer de mama, que há 2 anos o Projeto de Lei da Senadora Maria do Rosário (PT-RS), instituiu o dia 5 de fevereiro como o Dia Nacional da Mamografia.

De acordo com o Inca, 70% das brasileiras entre 50 e 69 anos têm acesso à mamografia, incluindo rede pública e privada. No entanto, dados da Pesquisa Avon/IPSOS - Percepções sobre o Câncer de Mama - revelam que apenas 20% das mulheres brasileiras fazem a mamografia ao menos a cada dois anos.

Ernestina passou por três cirurgias para a retirada do tumor na mama. Somente na última tentativa é que obtiveram resultado. Mas, ainda assim, o tratamento continuou com sessões de quimioterapia via oral e radioterapia. Na época, há quase 29 anos, a radioterapia era tão agressiva quanto à quimioterapia, e a enfermeira perdeu parte do cabelo e muito peso. "Perdi o apetite, cheguei aos 33 quilos. Fiquei em coma por nove dias, não por quê", conta.

Longe da família, do conforto e comodidade de sua casa, em um quarto com outros pacientes, igualmente em tratamento, sem alguém próximo para lhe fazer companhia, alcançar um copo d'água ou para comprar um lanche, Ernestina só tinha a fé de que iria superar os dias difíceis daquele momento de sua vida.

Dois anos depois, juntamente com uma amiga, também acometida de câncer, decidiram que iriam ajudar os portadores da doença, a terem maiores probabilidades de cura e melhor qualidade de vida, durante o tratamento. Foi aí que nasceu a Apoca - Associação dos Pacientes Oncológicos da região de Canoinhas. "Depois do sofrimento, Deus sempre manda a recompensa. Agora eu me sinto recompensada ao atender tantos pacientes"

A fundação da Apoca

Em 22 de abril de 1998, o grupo, composto por Pastor Wolfgang Richter, Marciana Salai, Jair Corte e Ernestina de Lima Gonçalves, se reunia na Rede Feminina de Combate ao Câncer para dar um passo importante para Canoinhas e região. Dos quatro principais fundadores da Apoca, apenas Ernestina ainda vive e ocupa o cargo de presidente de honra e primeira tesoureira da instituição.

Com o passar dos anos, a Apoca se estabeleceu como uma instituição apta a apoiar pacientes e disponibiliza-los, apoio assistencial, jurídico, médico, nutricional, psicológico e fisioterapêutico, prestando relevantes serviços a quase 500 pacientes oncológicos ativos, que estão em tratamento em hospitais especializados, e que necessitam de auxílio como medicamentos, cestas básicas, complementos e suplementos alimentares, além de roupas, colchões, fraldas descartáveis, materiais para convalescença, entre outros.

A entidade, que atua com recursos provenientes de doações, eventos, e campanhas, hoje possui sede própria, com área total de 200 m² na Rua Benjamin Constant e carros próprios. A Associação, que hoje tem mais de 3 mil pacientes cadastrados, possui um quadro funcional de profissional e de voluntariado. "Todos que foram contratados, começaram como voluntários aqui", conta a assistente social Eva Adriana Rosa.

O apoio é dado também aos familiares dos portadores de câncer, que participam de reuniões e palestras

Jane Cristina Dranka Fontana, assistente social da Apoca há 22 anos, observa o resultado de anos de trabalha na luta contra o câncer, no diagnóstico precoce dos novos pacientes. "Se for comparar, de lá para cá, os casos que tem chegado são mais iniciais que antigamente. Lá no começo da Apoca, era tudo metastático (quando o tumor se espalha para outros órgãos do corpo), ou em fase bem avançada, com tumores abertos", comenta.

Neste sentido, as assistentes sociais atentam a um dado interessante: o número de novos casos de câncer gástricos que chegaram na Apoca ainda no mês de janeiro deste ano foi mais do que em relação ao mesmo mês do ano passado. "Às vezes falta uma investigação maior por parte do paciente e do médico, que tomam as azias e mal-estar como corriqueiros. Muitas vezes, o próprio paciente se automedica e não busca uma orientação profissional, e quando descobre, o câncer está em estágio avançado", avalia Eva.








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