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História

Uma vida ligada pelos trilhos do trem

Confira a reportagem que foi destaque do Jornal Correio do Norte da última sexta-feira

Bruna Werle
Foto: Claro Gustavo Jansson

"O Restaurante da Estação Ferroviária de Marcílio Dias, ali, à margem dos trilhos, foi um dos encantos da minha infância. Vê-lo hoje abandonado, destruído, sem aquela imponência de antigamente, é uma coisa tão doída que não tenho ânimo de fazer mais aquele lindo passeio até a estação", as lembranças de Adair Dittrich continuam vivas em sua memória e estão eternizadas em crônicas no seu primeiro livro. Recentemente, a notícia de que o conjunto Ferroviário será restaurado alegrou a todos que, assim como Adair, mantêm uma ligação com a história do local.

Anunciada pelos apitos dos trens, filha de agente ferroviário, Adair nasceu na casa ao lado da Estação Ferroviária de Marcílio Dias. Até os dez anos, viveu e conviveu nesse ambiente, rodeada por locomotivas, viajantes, passageiros e funcionários da estrada de ferro. No entanto, a sua história começa com a vinda de seus avós para o município.  

Conhecida pelos deliciosos quitutes, principalmente o pastel, Thereza Gobbi e seu esposo Pedro foram convidados a deixar a cidade de Curitiba e embarcar em uma nova aventura. O vagão-cozinha trouxe o casal, e a filha Nena, mãe de Adair, junto a operários e engenheiros responsáveis pela construção da estrada de ferro - que depois se estenderia até Porto União da Vitória - para a Estação Ferroviária de Canoinhas, hoje, distrito de Marcílio Dias.

Dona Thereza foi convidada a assumir o futuro restaurante. Adair conta que foram seus avós que construíram o prédio onde funcionou o restaurante, por aproximadamente sete décadas. A recordação do local na época, ainda nítida em sua memória, não corresponde as condições do local atualmente. Abandonado desde que as atividades ferroviárias pararam, a Estação em breve voltará a funcionar. Não mais como antigamente, mas, com a restauração das edificações, será possível o desenvolvimento de projetos culturais por parte da Prefeitura Municipal, ficando a serviço tanto da comunidade quanto de turistas.

Tombado como Patrimônio Cultural Ferroviário do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no âmbito da Lei 11.483/2007, o Conjunto Ferroviário de Marcílio Dias é formado por três edificações: a estação de passageiros, o terminal de cargas (armazém) e o restaurante, todos alinhados paralelamente aos trilhos. De acordo com o Iphan, o conjunto é composto por duas edi?cações inteiramente em madeira (Estação e Restaurante) e uma em alvenaria (armazém). 

Depois de anos de espera, em julho deste ano, o Instituto anunciou a abertura do processo licitatório visando a contratação de serviços especializados de arquitetura e engenharia para realização de obra de restauro emergencial no Conjunto Ferroviário de Marcílio Dias. A empresa tem até 365 dias para a execução total do serviço, contados a partir da data de assinatura do contrato. O investimento total será de R$ 2,3 milhões, financiada pelo Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD).

Em agosto, a empresa Albatroz, de Curitiba, venceu a licitação, ficando responsável recuperação da integridade física do imóvel tombado. Na manhã de uma quarta-feira comum, aos 23 dias do mês de outubro, esteve na estação de Marcílio Dias, o engenheiro Antônio Carlos Bagatin, para estudo e verificação do espaço e do projeto. No entanto, foi apenas uma visita, pois a empresa espera a Ordem de Serviço para dar início às obras de restauração.

De volta ao passado

No dia 1º de abril de 1913 inaugura-se a Estação Ferroviária de Canoinhas, com 326,288 km, a Linha de São Francisco que ia até Três Barras. De acordo com o site Estações Ferroviárias, em 1917 a linha atinge Porto União da Vitória, de onde deveria continuar até atingir Foz do Iguaçu, mas esse trecho jamais foi construído. A linha se entronca com o Tronco Sul em Mafra e com a antiga Itararé-Uruguai em Porto União da Vitória.

Adair era filha de um agente ferroviário, e por isso, cresceu entre o Restaurante dos Nonnos (avós em Italiano), o Hotel Gobbi e as linhas ferroviárias. Único transporte (rápido) da época, as locomotivas transportavam pessoas, mantimentos e madeira. Aos dez anos, mudou-se para a cidade para continuar os estudos, primeiro em Canoinhas, onde concluiu o ensino básico em um internato, depois rumou a Curitiba para finalizar o científico (hoje ensino médio) e graduar-se em Medicina.

Nas férias, retornava para Marcílio Dias para visitar as suas raízes. "Mesmo depois de formada, quando fazia residência em Santos, e depois quando estava trabalhando no norte do Paraná, sempre voltava. Mais tarde retornei". E somente nos anos de 1991 que Adair construiu uma casa em Canoinhas e deixou o distrito. Mas, continuou trabalhando no Hospital em Marcílio. "Uma vida ligada pelos trilhos do trem. Eu continuo sonhando com ele", revela a médica.

A estação de Marcílio Dias foi atacada e incendiada durante a guerra do Contestado, no mesmo ano de sua inauguração. A estação, junto com mais cinco da linha São Francisco, foi invadida durante os conflitos do Coronel Fabrício e seus bandoleiros, que queriam a criação do Estado do Iguaçu, que compreendia a zona do antigo Contestado, em 1927 e 1928.

Adair ainda não tinha nascido nessa época, mas as histórias narradas ficaram gravadas em sua memória. "Minha mãe contava que parecia que estavam bombardeando Marcílio Dias no dia em que atearam fogo na Estação. Naquele tempo, transportavam gasolina e querosene em tambores grandes e o armazém estava carregado desses tambores. Diz que eles voavam para o espaço, feito foguete. Eram lançados à quilômetros", conta.

A médica conta que as histórias dos fanáticos aterrorizaram por anos os moradores do local. Expulsos de suas terras por conta da construção da ferrovia, eles ateavam fogo em tudo que era ligado à estrada. "Lembro de falarem muito do tal do Coronel Fabrício e seus jagunços. Por anos a gente sentiu medo deles por conta das histórias de suas desavenças".

Depois de 20 anos da Estação chegar em Marcílio, em 1930, foi aberta o curto ramal de Canoinhas. Até então, conta Adair, os passageiros que desembarcavam na Estação, pernoitavam no Hotel de seus avós, para que pela manhã, pudessem seguir viagem até a cidade. Com a chegada do Ramal, os 4.340 km entre o distrito e Canoinhas as idas e vindas ficaram mais fáceis. A nova estação de Canoinhas passou a ser a da ponta do ramal.

Ao todo eram 10 minutos de viagem. Às 9h50 a locomotiva saía de Canoinhas e chegava às 10h em Marcílio. Às 10h50 saía da Estação rumo à cidade, para às 11h desembarcarem lá. À tarde os horários eram às 16h50 de Marcílio á Canoinhas e às 17h40 o retorno para o conjunto ferroviário.

"Tudo o que a gente precisava fazer em Canoinhas, a gente vinha de trem e voltava a pé. Ou vinha a pé e voltava com o tremà tarde. Ou então a gente pegava carona com a máquina que fazia a manobra. A gente vinha com o trenzinho pela manhã, ia fazer o que tinha de fazer: ir no dentista ou fazer compras e a gente sabia que, no mais tardar, às 14h horas, a manobra estava saindo. Nós íamos correndo para pegar carona com o maquinista e o foguista, na máquinapara voltar para Marcílio. Ou o inverso, vinha com a manobra pela manhã e retornava com a locomotiva", relembra.

O ramal foi desativado para passageiros no final dos anos 1960 e desativado definitivamente em 1976. "Quando parou os trens de passageiro, continuaram os trens de carga. Nesse tempo já existia a locomotiva a diesel. Depois nem trem de carga passava mais, porque não tinha mais o que transportar". Nessa época, o pai de Adair já havia falecido e a mãe, aposentada, não tinha mais condições de manter o restaurante. "Quando acabou o trem, perdeu a razão de existir", diz com pesar.

Adair, com uma memória invejável, resolveu guardar as histórias do passado em crônicas. Os relatos foram publicados no seu primeiro livro, denominado O meu lugar. Recentemente, a escritora finalizou seu quarto livro, onde retorna a contar as histórias da estrada de ferro. O livro deve ser lançado em breve. Na próxima edição do CN, continuaremos a contar sobre as viagens de trem da época, a ferrovia e o conjunto de Marcílio Dias.

Palco de lendas

A estação é o cenário de uma das mais marcantes lendas urbanas de Canoinhas. Todo canoinhense já ouviu a triste história da moça que, no dia do seu casamento, foi abandonada pelo noivo. A decepção foi tão grande que a noiva se jogou da ponte da ferrovia, cometendo suicídio. Segundo relatos de muitos moradores, o espírito da jovem ronda as mediações da estação ferroviária até os dias de hoje.

Na noite da quinta-feira passada, 31, a comunidade compareceu em peso no ginásio da E.E.B Prof. Manoel da Silva Quadros, em Marcílio Dias, onde aconteceu o lançamento do documentário "A Noiva da Estação", produzido pelos alunos da escola. Segundo Siomara, diretora da escola, cerca de 400 pessoas prestigiaram o lançamento.

O filme conta a história do casal "Lucas e Marina" (nomes fictícios), que viveram um romance nos anos 60, no distrito de Marcílio Dias, e por problemas de relacionamento com a família de Lucas, a jovem teria se suicidado na ponte da linha do trem. O documentário teve com atores os membros da comunidade e alunos da escola. A direção e edição ficou a cargo do professor de português e literatura Julio Cesar Vieira.






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