Violência interrompe transportes e afeta acesso à educação no Rio
Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, interrupções no transporte público causadas pela violência afetaram rotas usadas no deslocamento entre a casa e a escola por quase 190 mil estudantes da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro.
O dado faz parte do estudo Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro, divulgado nesta quinta-feira (26) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Instituto Fogo Cruzado e o Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF).
A pesquisa levantou 2.228 interrupções nos modais de transporte público usados por esses estudantes no período analisado. Entre elas, 49% ocorreram em dias letivos e no horário escolar, das 6h30 às 18h30.
Os episódios contabilizados foram causados principalmente por barricadas, em 32,4% dos casos, seguidas por ações ou operações policiais (22,7%), manifestações (12,9%), ações criminosas no local (9,6%) e registros de tiros ou tiroteios (7,2%).
As interrupções apuradas duraram, em média, sete horas por evento, sendo que um quarto delas se prolongou por mais de 11 horas. Nos casos em que o transporte foi afetado em horário escolar, a duração média sobe para oito horas e 13 minutos, e mais da metade dos episódios ultrapassa quatro horas, o que compromete os turnos escolares e deixa os estudantes impossibilitados de chegar à escola ou de retornar para suas casas.
Em entrevista à Agência Brasil, a chefe do escritório do Unicef no Rio de Janeiro, Flavia Antunes, reforçou que o estudo destaca dois tipos de percursos interrompidos: o caminho para a escola e o percurso de vida desses estudantes.
Impacta muito a trajetória de uma vida quando ocorre o impedimento do acesso a um direito fundamental, como a educação.
Flavia Antunes explicou que os episódios que ocorrem no horário de entrada e de saída da escola acabam criando nas crianças e nos adolescentes um temor de que, no dia seguinte, ocorra a mesma coisa. Isso contribui para desestimular os estudantes a irem para a escola, além de desencadear questões de saúde mental e impactar a capacidade de aprendizado.