SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O tempo não existe. A máxima de Mário Peixoto pode até soar bem como um postulado metafísico de sua arte, mas cai por terra quando o assunto é a sua própria preservação. "Limite", o único filme que o artista concluiu em vida, aos 22 anos, eleito em diferentes ocasiões como o melhor longa brasileiro já feito, esteve mais de uma vez à beira não só do esquecimento, mas também do sumiço.
Rodada ao longo de 1930 e finalizada em 1931, essa obra-prima do cinema mudo nasceu cercada de anacronismos. Foi uma empreitada de vanguarda numa época em que os filmes sonoros já haviam aportado no Brasil, inclusive com certo atraso em relação aos Estados Unidos, onde a novidade fora lançada em 1927.
Somado à sua estética experimental e poética, esse aspecto fechou as portas das distribuidoras a "Limite", que nunca teve exibições comerciais. Por duas décadas, foi visto em parcas projeções promovidas por amigos do diretor, enquanto os úmidos ares tropicais se encarregavam de, pouco a pouco, corroer a película engavetada.
Não há dúvida: teria desaparecido caso as imagens daquelas latas não tivessem despertado uma paixão avassaladora em outros sujeitos quase tão obsessivos quanto o seu criador.
As belezas e os tropeços dessa corrida contra o tempo, ao longo de 80 anos, são agora condensados em "Mapa de 'Limite'", livro no qual a faceta mítica do longa se desdobra a partir dos esforços de Saulo Pereira de Mello, guardião da obra desde 1960.
"Saulo ficou iluminado pelo filme, completamente fascinado, e tomou o restauro como missão de vida, basicamente", diz o professor de cinema e gestor cultural Carlos Augusto Calil. Ao lado da restauradora Patricia de Filippi, ele é um dos organizadores do livro que sai pela editora Cosac em parceria com a Cinemateca Brasileira.
O lançamento será na instituição, neste sábado (12), às 17h, com uma sessão gratuita de "Limite".
Esse "Mapa" é uma reedição do guia plano a plano do filme, publicado originalmente em 1979 pela Funarte, composto artesanal e minuciosamente por Mello a partir da única cópia remanescente até então.
O livro, grande e quadrado, com dimensões próximas a uma capa de vinil, dedica metade das suas 200 páginas a uma partitura visual do filme, cujas duas horas são aqui decupadas numa sequência de mais de 1.600 quadros.
Eles são acompanhados por descrições rápidas e objetivas da ação, do movimento dos personagens e da câmera, respeitando os enquadramentos originais do fotógrafo Edgar Brasil, bem como os cortes, as fusões e a duração, medida em pés e fotogramas.
O volume traz ainda uma série de ensaios críticos, documentos e uma inédita reconstituição gráfica da sequência perdida do rolo dois, de cerca de 30 segundos, feita a partir dos únicos sete fotogramas sobreviventes e de um "storyboard" desenhado por Mello, em 1987, a partir da memória de Peixoto.
A origem do mapa está ligada a um esforço técnico de preservação numa época em que o videocassete ainda era uma promessa. Daí Mello ter buscado um equivalente ao solfejo --a técnica de vocalizar notas musicais a partir de uma partitura--, mas em termos visuais.
Aflito com a deterioração da cópia original em nitrato de celulose, bastante instável e inflamável, ele percebeu que, ao colocar ampliações fotográficas dos planos lado a lado, conseguia ver a montagem e o ritmo reaparecerem, mesmo de forma estática.
"O mapa é um roteiro da restauração. E também tem, do ponto de vista simbólico, uma função de reter o filme. O Saulo nunca quis se afastar dele", diz Calil.
Saulo Pereira de Mello era um jovem estudante de física na Faculdade Nacional de Filosofia, hoje integrada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando se encantou com "Limite", em 1953, numa sessão capitaneada pelo seu professor, Plínio Sussekind Rocha, de quem se tornaria amigo próximo.
Ficou arrebatado, segundo dizia, pela organização da história daqueles três náufragos, duas mulheres e um homem, cujos destinos trágicos --e banais-- são organizados num "fluxo de imagens luminosas, determinado por uma rítmica ousada", com muitas tomadas de natureza e do início da urbanização.
"O tema é a limitação do homem finito diante do universo infinito", como descreve Mello, algo posto na antológica imagem inicial: um rosto de mulher, com grandes olhos fixos, envolto por duas mãos masculinas algemadas.
Muito além da cátedra de mecânica, Rocha havia sido um dos fundadores do Chaplin Club, cineclube pioneiro que promoveu a primeira sessão de "Limite". O acadêmico se reaproximou de Mário Peixoto em 1942, a partir de uma célebre sessão promovida por Vinicius de Moraes com Orson Welles na plateia --diz a lenda que o prodígio de "Cidadão Kane", no Brasil para rodar o inacabado "It's All True", estava de porre e dormiu.
Desde então, com a autorização do cineasta, Rocha fazia sessões ocasionais de "Limite" no cineclube da faculdade, à época frequentado por outros estudantes como Joaquim Pedro de Andrade, Paulo César Saraceni e Leon Hirszman --posteriormente ligados ao cinema novo.
Mas, em 1959, o professor notou nos rolos uma hidrólise avançada, reação química que deixa a película melada e frágil. Foi quando o mestre provocou o pupilo. "O filme está se perdendo. Você não vai fazer nada?", disse Rocha a Mello. "Vai deixar que um filme como esse desapareça?"
Em maio do ano seguinte, Peixoto cedeu as 19 latas da produção e Mello, então publicitário, iniciou sua aventura autodidata, entre cópias de acetato em laboratório e experimentos empíricos.
"Um dia, ele começou a mexer com o filme na mesa depois do jantar, foi dormir e deixou o rolo aberto. No dia seguinte, percebe que a hidrólise havia secado pelo sol, por acaso, e ele começa a fazer isso sistematicamente", diz Calil.
Nesse processo, para conceber o mapa, montou uma estrutura amadora na sua mesa de jantar. Acoplou uma câmera Pentax a um dispositivo improvisado e passou as madrugadas fotografando os quadros-chave diretamente da película. O restante foi muito trabalho com tesoura, cola, lápis e papel.
Nasceu, assim, "um meio-termo entre a memória e a vivência da obra, algo que fosse análogo nesse poder de reinstaurar a presença, sem ela, ao texto de teatro, à partitura de música", como escreve Mello na introdução do volume. "Disco, reprodução, livro são obras tornadas múltiplas. Partituras e texto --e o mapa-- são meios-caminhos entre a realidade e o recordar."
Até o final do ano, a Cinemateca também passará a sediar o Arquivo Mário Peixoto, acervo reunido por Mello com todo o espólio intelectual e afetivo do diretor.
Os itens estão sendo transferidos do escritório da produtora VideoFilmes, no Rio de Janeiro, onde o arquivo foi criado, em 1996, com apoio de Walter Salles. Admirador de "Limite" e da saga de Mello, o cineasta de "Ainda Estou Aqui" dedicou um obituário ao restaurador, incluído no volume.
"Saulo entendeu como ninguém a importância de 'Limite' para a cinematografia brasileira", diz Salles à reportagem. "Muitos jovens cineastas, como Karim Aïnouz e Sérgio Machado, gravitaram em torno do Arquivo Mário Peixoto e participaram das projeções comentadas de filmes mudos dos anos 30 que Saulo fazia. 'A Linha Geral', de Eisenstein, e 'A Paixão de Joana D'Arc', de Dreyer, foram alguns desses filmes, que ele analisava plano a plano. Foram as melhores e mais apaixonantes aulas sobre cinema que já tive."
Aos 87, Mello foi vítima da Covid-19, em 2020. Desde então, o material estava aos cuidados de sua viúva, a pesquisadora Ayla, e de seu assistente Filippi Fernandes. "Considero o 'Mapa de 'Limite'' uma das formas mais geniais de 'vermos' um filme, plano a plano. É o fruto de um trabalho exaustivo", afirma ainda o diretor de "Ainda Estou Aqui". "Fico feliz que o arquivo seja abrigado pela Cinemateca Brasileira e passe a pertencer a uma instituição pública."
"O Saulo não queria que a nova edição fosse um projeto póstumo, mas não teve jeito", diz Patricia de Filippi, que coordenou o Laboratório de Restauração da Cinemateca por cerca de 15 anos. Nesse período, ela conduziu, com Mello, o trabalho que resultaria na versão mais atual de "Limite". Era o início dos anos 2000 e o tempo, irrefreável, já começava a avinagrar os rolos da restauração de 30 anos antes.
Com o apoio da Film Foundation de Martin Scorsese e da Cinemateca de Bolonha, chegou-se à versão disponível hoje, que incorporou as facilidades do mundo digital para que respeitasse a beleza dos contrastes da cópia em nitrato --destruída por Mello devido aos riscos de autocombustão do material.
"Velhinho, ele falava que era o único no Brasil que tinha visto 'Limite' e que poderia falar 'aqui é mais escuro, aqui é mais claro'", diz Filippi. Plínio Sussekind Rocha havia morrido em 1972. Mário Peixoto, em 1992.
A nova matriz também se destacou por recuperar a trilha sonora conforme havia sido concebida por Brutus Pedreira, pianista e um dos atores do filme. A restauradora recebeu de Mello a maleta original com os discos de 78 rotações usados nas primeiras projeções, com uma miscelânea de peças de Maurice Ravel, Igor Stravinski, além de uma versão orquestrada por Claude Debussy para a "Gymnopédie" de Erik Satie.
Mas os discos não funcionavam, o sulco estava tão raso que a agulha [do toca-discos] não fixava mais", diz Fillipi. Coube, então, ao pesquisador Adriano Campos fazer uma pesquisa internacional, em mais de 50 CDs, para recuperar as mesmas gravações da época.
"Meu grande prazer foi apresentar a cópia final para o Saulo. Ele ia antecipando cada plano, falando 'agora tem que vir a sombra no mar, o remo dentro da água, a tal nuvem'. E aí aparecia tudo. Foram duas horas de uma certa tensão, mas, depois, veio um grande alívio."
Segundo ela, a nova edição do "Mapa" estava encaminhada desde essa época, mas a publicação acabou sendo adiada após uma sequência de crises na Cinemateca.
Nesse meio-tempo, Carlos Augusto Calil, hoje presidente do conselho de administração da Sociedade Amigos da Cinemateca, juntou-se ao projeto e deu conta de adicionar materiais escavados do arquivo.
"O Saulo era uma daquelas pessoas com pânico de escrever e, sobretudo, de dar um ponto final. Ele começava a escrever várias vezes o mesmo texto, chegava até um certo ponto e abandonava", diz o professor. "Juntando trechos aqui e ali, eu fiz uma montagem cinematográfica para dar conta de tudo que ele realizou."
Vale ressaltar o texto inédito em que Mello, indignado, defende "Limite" dos delírios tardios do próprio Mário Peixoto. A polêmica tem a ver com a sequência perdida, agora reconstituída no "Mapa", em que se vê um relógio de bolso com o mostrador virado para baixo, no fundo do barco onde estão os protagonistas.
Esse, defendia o restaurador, era o único momento em que o item aparecia em cena. O cineasta, já idoso, porém, recusava-se a ver a cópia restaurada e passou a espalhar, em entrevistas, a versão de que "Limite" havia sido "mutilado", perdera meia hora de projeção e não terminava com a imagem de um grupo de urubus num monte.
Insistia numa imaginária cena final em que o tal relógio afunda até o leito oceânico, com o mostrador para baixo --simbolizando seu conceito de que o tempo não existe.
"Que da perda dessa pequena sequência tenha surgido toda uma construção fabulosa 'retocando' 'Limite' só nos fala da ingenuidade fundamental do grande artista intuitivo que era Mário Peixoto", escreve Mello. Para o restaurador, a cena perdida não tinha nenhuma "intenção metafísica profunda", era apenas a metáfora para os batimentos cardíacos de uma personagem.
"O Mário insistiu muito com o Saulo e comigo para que a sequência fosse filmada, mas ele já estava embaralhando as coisas", afirma Calil, referindo-se aos projetos de "O Inútil de Cada Um" --um romance proustiano do qual só foi publicado o primeiro de seis volumes-- e "A Alma Segundo Salustre" --um roteiro nunca filmado.
O primeiro contato do professor com "Limite" havia sido ainda em 1973, como penetra de uma sessão privada para Paulo Emílio Salles Gomes, principal idealizador da Cinemateca. Na ocasião, Calil trabalhava na montagem de um filme numa moviola da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde era aluno do crítico, e foi convidado pelo projecionista da faculdade para ver o filme escondido na cabine.
"O Saulo tinha uma enorme desconfiança do Paulo Emílio, e suspeito que o motivo talvez fosse porque ele era o preferido do Plínio [Sussekind Rocha]", diz Calil. "E o Paulo Emílio retribuiu isso de uma maneira curiosa, desprezando o filme. Ele tinha uma visão do cinema como um fenômeno social, e não como fenômeno estético isolado, como era o caso."
Anos mais tarde, em 1981, com Calil à frente do setor de operações não comerciais, a Embrafilme adquiriu os direitos de exibição de "Limite", bem como todo material produzido durante o processo de restauração.
A iniciativa, mediada por Ruy Solberg --autor do curta "O Homem do Morcego", sobre o isolamento de Peixoto-- permitiu que o longa voltasse a circular de forma mais ampla e tivesse o devido reconhecimento. Além disso, foi um socorro financeiro ao cineasta septuagenário, então vivendo num quarto humilde em Angra dos Reis, no Rio, após ter ficado recluso por quatro décadas no Sítio do Morcego, na Ilha Grande.
Foi nesse contato mais próximo que Calil descobriu a faceta mitômana e decadentista daquele cineasta que vivia do próprio passado --em vários sentidos. Ao saber do seu aperto, o professor fez uma sugestão da qual hoje se arrepende: por que não vender o apartamento da família em Copacabana? "Ele parou, respirou fundo, olhou para mim e falou: 'As paredes ainda têm o cheiro do fumo de papai.'"
Nascido em 1908, Mário Peixoto vinha de uma estirpe aristocrática de plantadores de café e traficantes de escravizados pelo lado do pai, e de usineiros de açúcar e proprietários de terras em Mangaratiba, no litoral fluminense, da parte materna.
Criado por uma avó abastada após a morte precoce de sua mãe, estudou por um ano na Inglaterra --uma experiência pessoalmente desagradável, mas que despertou sua veia artística.
"Ao longo do diário [de 1927], você percebe esse horror dele ao fluir do tempo", afirmou Mello, em entrevista à Folha, em 1998, por ocasião da publicação desses escritos pessoais. "O Mário descobriu na Inglaterra que o mundo é uma coisa ruim, da qual ele precisava se defender. Uma das maneiras era se disfarçar, se esconder, usar o mimetismo. Ele inventou milhares de histórias sobre si mesmo."
No retorno ao Brasil, determinado a virar ator, aproximou-se do círculo artístico da época e foi apresentado a Brutus Pedreira, Raul Schnoor --que teriam papéis em "Limite"-- e ao cineasta e produtor Adhemar Gonzaga, que rodava "Barro Humano", hoje considerado perdido. Ao mesmo tempo, foi fundado o Chaplin Club, do qual participava Otávio de Faria, amigo de infância e grande interlocutor de Mário Peixoto.
Nesse desejo de conhecer mais da cultura mundial, ele retornou à Europa para uma curta temporada em Londres e em Paris. Após uma briga com o pai, avistou numa banca a capa da revista Vu, com uma fotografia de uma mulher algemada por braços masculinos. Foi não só sua inspiração para a imagem inicial de "Limite", como para o primeiro esboço do roteiro, escrito naquela noite.
Inexperiente, Mário Peixoto tentou convencer Gonzaga e Humberto Mauro, outro grande cineasta da época, a rodarem a obra, mas ambos negaram de pronto, tamanha a pessoalidade daquelas ideias. A vontade de filmar logo se transformou em decisão, conforme Peixoto decidiu bancar a empreitada com o apoio de amigos e da abastada família.
A começar pelo tio, então prefeito de Mangaratiba, que pôs a decadente cidade colonial à disposição do sobrinho para as filmagens, de maio a dezembro de 1930.
Lá, mobilizou uma equipe enxuta para rodar essa história de personagens sem nome. A mulher Nº 1 era Alzira Alves, funcionária de outro tio do cineasta, que ganhou o nome artístico de Olga Breno. Na trama, ela faz uma costureira que é presa após cometer um crime e consegue fugir seduzindo o carcereiro.
Já Yolanda Bernardes, figurante com o nome artístico de Taciana Rei, é a infeliz mulher Nº 2, casada com um bêbado pianista de cinema, o homem Nº 2, papel de Brutus Pedreira.
O homem Nº 1, por fim, é Raul Schnoor, um rapaz viúvo, que fica desolado ao descobrir que sua amante é "morfética" --termo da época para leprosa. A revelação é feita pelo seu marido, interpretado pelo próprio Mário Peixoto, que confronta o homem no túmulo da esposa.
Entre imagens de árvores, pastos, estradas de terra, postes elétricos e tesouras, é nesse turbilhão de flashbacks que o personagem de Schnoor se encontra com as duas mulheres, numa canoa naufragada num mar de fogo, cintilante e tempestuoso, registrado pelas lentes de Edgar Brasil.
Para corresponder às prescrições poéticas de Peixoto, o fotógrafo teve de improvisar diversas soluções, construindo carrinhos, gruas e plataformas --para acompanhar, por exemplo, a caminhada de dois amantes numa praia em uma "steadycam" avant la lettre--, além de ter feito notáveis planos com a câmera na mão.
O resultado foi uma obra em que os componentes dramáticos, plásticos e sensoriais não têm par. "O filme é um prodígio de invenção", diz Calil. Há uma cena em que a mulher Nº 1 foge da cadeia, vai pela estrada até que a perdemos de vista. Não é um filme narrativo, mas de poesia, em que a câmera é o eu lírico."
Apesar de Saulo Pereira de Mello ter classificado a obra como "o final da metamorfose do cinema silencioso", sua proposta e ritmo lento não chamaram a atenção de imediato.
A exceção foram os elogios catalogados pelo amigo Otávio de Faria, em uma carta escrita três dias após a primeira exibição, em maio de 1931, em que ele tenta convencer o amigo das qualidades da obra. Saboroso, este documento registrado na nova edição do "Mapa" sugere como a insegurança era o ponto fraco do cineasta. Não à toa, anos depois, Peixoto escreveria ele mesmo um artigo enaltecendo o filme, mas que fez circular como sendo do russo Serguei Eisenstein.
O artista teria uma espécie de segunda chance ao trabalhar com a atriz Carmen Santos, que fez uma ponta em "Limite" e pediu a ele um roteiro consagrador. Daí nasceria "Onde a Terra Acaba", mas logo o choque dos temperamentos de ambos azedou a produção.
A trama acabou sendo finalizada em 1933 sob a direção de Otávio Gabus Mendes, mas foi um fracasso e as cópias também se perderam. Depois, o cineasta baiano Sérgio Machado tomaria o título para o seu documentário de 2001, em que explora os bastidores de "Limite" e os mistérios que rondam o seu diretor.
Estudos mais recentes desdobram ainda uma faceta que Saulo Pereira de Mello rejeitava --a pulsão gay de "Limite". Pesquisadores como Denilson Lopes veem, hoje, a partir da leitura dos diários do diretor, a catarse de um jovem reprimido pelas convenções sociais e por um pai castrador.
"Há várias metáforas eróticas, como a câmera se aproximando da bica que jorra água, o homem que chuta o sapo com nojo, o capim descabelado pelo vento", diz Carlos Augusto Calil, para quem essa era uma das razões pelas quais Peixoto recusava rever o filme. "Era um desabafo dele."
E, ainda que a reedição do "Mapa" ilumine zonas cinzentas, não parece haver um ponto final à vista. Prova disso é que os organizadores não conseguiram cumprir todas as instruções deixadas por Saulo Pereira de Mello para o livro.
Entre elas estava a inclusão do roteiro do filme e de todas as anotações que Peixoto fez, à mão, num exemplar do primeiro "Mapa". Essas notas, diz Calil, são feitas num estilo "completamente derramado", prolixo, o que tornaria a leitura insustentável. A transcrição será disponibilizada para pesquisadores e curiosos a partir da chegada do Arquivo Mário Peixoto à Cinemateca.
Restou no mapa apenas a primeira nota, explicando o porquê do título ter sido desenhado numa tipografia de filme de terror, com letras que parecem derreter em sangue. "Horrível letreiro colocado no início do copião", escreve Peixoto, "feito de qualquer jeito por um desenhista da 'United' amigo de Edgar Brasil". Pode soar impróprio, mas, 95 anos depois, "Limite" não parece mesmo uma história de fantasmas.
Mapa de 'Limite'
Quando: Lançamento neste sáb. (12), às 17h
Preço: R$ 180 (200 págs.)
Autoria: Saulo Pereira de Mello
Editora: Cosac e Cinemateca Brasileira
Organização: Carlos Augusto Calil e Patricia de Filippi