Mercado vê menos espaço fiscal para controle de preços dos combustíveis
Economistas avaliam que o governo pode estar perto do limite para continuar subsidiando os preços de combustíveis com ganhos de arrecadação ligados ao petróleo. Nesse cenário, fica mais difícil amortecer um novo choque no diesel sem impacto nas contas públicas.
"Parece que o governo já fez tudo o que podia fazer e vai chegar um momento em que vai estar mais gastando para manter os preços do que arrecadando por conta do petróleo mais alto", diz o estrategista-chefe da Monte Bravo, Rai Chicoli. Uma nova rodada de subsídios, acrescenta, provavelmente teria custo fiscal.
A economista-chefe da Mirae Asset no Brasil, Marianna Costa, afirma que, com o galão do diesel acima de US$ 6,50 e a gasolina acima de US$ 4,50, há forte argumento político para o governo dos Estados Unidos agir, embora a forma final dessa resposta seja incerta.
Se houver restrições ao diesel dos EUA, diz Costa, o impacto para o Brasil tende a ser relevante, já que uma parcela importante do diesel consumido internamente vem do mercado norte-americano, especialmente após o bloqueio da Rússia. Segundo ela, um repasse da alta nos preços do diesel afetaria principalmente fretes e bens industriais.
Para a economista, uma nova rodada de subsídios aos combustíveis exigiria crédito extraordinário ou mais contingenciamento. "Sob as regras do arcabouço fiscal e sem margem no orçamento, estender ou ampliar novas rodadas de subsídio exige o remanejamento de verbas ou o aumento do déficit público", afirma.
O economista-chefe da EQI Investimentos, Stephan Kautz, também avalia que um embargo dos EUA às exportações elevaria ainda mais o preço do diesel no mundo, aumentando a pressão inflacionária no Brasil.
"Continuamos preocupados em relação à inflação, que deve reacelerar nos próximos meses, tanto por essas questões relacionadas a combustíveis quanto por efeitos do El Niño e pela reversão de alguns fatores temporários, que ajudaram a inflação no meio do ano", diz Kautz.
Para Rai Chicoli, se o governo não conseguir amortecer a alta nos preços do diesel, o ajuste pode vir pela demanda, com queda da atividade no transporte. "Talvez chegue um momento em que o combustível fica tão caro que, para alguns caminhoneiros, não faria sentido trabalhar", afirma.