CNI: em meio à baixa avaliação de hidrovias e ferrovias, 75% veem transportes como gargalo
Cerca de 75% dos empresários industriais consideram o setor de transportes como o principal gargalo da infraestrutura do País, segundo a pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A percepção é acompanhada de avaliações positivas baixas dos modais portuários (44%), rodoviário (38%), hidroviário (27%) e ferroviário (21%), enquanto 98% das empresas utilizam rodovias para transporte de cargas, inclusive em trajetos de longa distância.
O levantamento também mostra que, entre as empresas que utilizam o modal rodoviário, 49% transportam cargas por distâncias superiores a 800 quilômetros. Desse total, 23% percorrem mais de 1,6 mil quilômetros. Para a CNI, os dados evidenciam a dependência do transporte rodoviário no Brasil e a necessidade de ampliar a integração com outros modais, como ferrovias, hidrovias e cabotagem, especialmente em percursos mais longos.
"Existe uma grande insatisfação dos empresários com algumas áreas da infraestrutura brasileira. O levantamento aponta problemas como rodovias em más condições, trechos ferroviários abandonados, limitações de acesso e capacidade nos portos, falhas no fornecimento de energia, dificuldades de conectividade à internet e restrições para o tratamento e a destinação de efluentes", afirma o presidente da CNI, Ricardo Alban, em nota.
A pesquisa também aponta disposição dos empresários para mudar parte das operações de transporte caso houvesse infraestrutura adequada. Entre as empresas que utilizam rodovias, 45% afirmaram que transferiram ao menos parte das cargas para outros modais nessa situação. Entre as alternativas apontadas pelo grupo, o transporte ferroviário aparece na frente, com 67% das menções, seguido pelo aperea (21%), cabotagem (6%), portuário (3%) e hidroviário (3%).
A redução dos custos de transporte é o principal fator que levaria à mudança: foi citada por 82% dos empresários dispostos a transferir parte das operações para outros modais.
Ferrovias
A avaliação da infraestrutura ferroviária é a mais negativa entre os modais pesquisados. Cerca de 21% dos empresários classificam as condições das ferrovias como ótimas ou boas. A percepção ocorre em um cenário de redução e subutilização da malha: o Brasil conta atualmente com cerca de 30 mil quilômetros de ferrovias, ante 37 mil quilômetros na década de 1950. Desse total, cerca de 12 mil quilômetros estão sem operação, abandonadas ou totalmente ociosas.
Segundo a CNI, 99% da malha ferroviária está sob responsabilidade de concessionárias privadas, mas a operação privada não garantiu, por si só, o aproveitamento eficiente da infraestrutura existente. A entidade aponta entraves como dificuldades de acesso à malha, direito de passagem, capacidade operacional e interoperabilidade entre redes, fatores que limitam a integração ferroviária e a ampliação do transporte de cargas pelo modal.
"Diante da limitação dos recursos públicos, o capital privado é cada vez mais importante para financiar a expansão e a modernização da infraestrutura brasileira. Telecomunicações e aeroportos mostram como a combinação entre investimento privado e ambientes regulatórios mais maduros, com regras mais estáveis e modelos consolidados, pode contribuir para expandir a infraestrutura e melhorar a qualidade dos serviços prestados", afirma o diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, em nota.
Energia
A energia é um custo que também é visto como fator de pressão relevante na indústria. Para 81% dos empresários, o preço da eletricidade é alto ou alto demais. Encargos e tributos representam 44% da conta de energia elétrica, sendo 18% referentes a encargos e 26% a tributos, segundo a CNI. A participação de encargos e subsídios na tarifa teria passado de 2,9% em 2017 para 18% em 2025.
"Na energia, é necessário garantir maior qualidade e confiabilidade no fornecimento, além de conter o crescimento dos encargos e subsídios que pesam sobre a tarifa. Avançar nessas agendas é fundamental para reduzir o custo de produção no Brasil", afirma o especialista de Infraestrutura da CNI, Ramon Cunha.
Metodologia
A pesquisa Panorama da Infraestrutura: Principais Demandas da Indústria Brasileira foi realizada pela Nexus, a pedido da CNI, por telefone, entre 26 de março e 26 de maio de 2026.
Foram entrevistados 2,5 mil empresários de médias e grandes indústrias, nos 26 Estados e no Distrito Federal.
A margem de erro máxima é de 2,5 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.