Na avaliação do professor titular aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Williams Gonçalves, as consequências da ofensiva podem desorganizar a economia global, seja por envolvimento militar de vizinhos e gargalo no comércio internacional de petróleo.
Para ele, o fechamento do Estreito de Ormuz criará desequilíbrio na distribuição do petróleo e rápida elevação de preços. Isso vai afetar países que estão muito distantes do teatro de guerra e que não têm nada a ver diretamente com o problema, antecipa.
Negociação "no lixo"
O pesquisador do FGV Leonardo Paz Neves considera que o ataque militar em meio a negociações com o Irã joga a chance de um acordo no lixo.
Os dois países participam de rodadas de conversa em relação ao alcance do programa nuclear iraniano. O país do Oriente Médio alega que é para fins pacíficos. No entanto, Estados Unidos e alguns aliados, como Israel, temem que o regime iraniano desenvolva armas nucleares.
O último encontro havia sido na quinta-feira (26), e o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, que atua como mediador da conversa, havia informado publicamente que o processo estava avançando.
Neves lembra que havia uma reunião entre as partes marcada para a próxima semana.
Os Estados Unidos vão lá e atacam no meio do caminho, atacam de surpresa. Então, obviamente, jogam o acordo no lixo, diz o pesquisador.
Qual é o incentivo que os iranianos têm agora de acreditar em qualquer coisa que os americanos façam?, indaga.
Para Neves, o governo do presidente americano Donald Trump estava usando a negociação como engodo, enquanto conseguia tempo para posicionar equipamentos e armamento militares próximos ao Irã.
O professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), disse à Agência Brasil que as demandas americanas nas negociações eram muito altas e exigentes. Dificilmente os iranianos aceitariam, acredita.
As negociações me pareceram mais uma estratégia para inglês ver window dressing, como se chama em inglês. Simplesmente para fazer a preparação estratégica e logística de pressão dos Estados Unidos, completa.
Mudança de regime
Neves considera também que o objetivo declarado de Trump de mudança de regime politico no Irã não será algo fácil de se conseguir.
Não me parece que vai ser algo trivial, diz. Na visão dele, o Irã tem se preparado para um ataque, e as principais autoridades, como o líder supremo Ali Khamenei, encontram-se protegidas.
Acho que não vai ter essas missões espetaculares, como teve na Venezuela, aponta o pesquisador da FGV, se referindo ao sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro.
O professor da USP Feliciano de Sá Guimarães elenca fatores que dificultam os esforços dos Estados Unidos para a troca de poder no Irã.
É uma situação de escalada militar e quem estuda escalada sabe que o vitorioso é sempre aquele que está disposto a subir mais riscos. Ao que parece, o Irã, neste momento, ao contrário do ano passado, está disposto a subir mais riscos, sustenta.
Na visão de Guimarães, o Irã é um país muito grande e muito difícil de ser vencido estrategicamente. Os americanos conseguem vitórias táticas e não vitórias estratégicas contra o Irã, diz.
Williams Gonçalves considera que o Irã é uma nação organizada, tem história e capacidade de reação. O professor da Uerj enfatiza que o país tem importantes aliados no cenário internacional.
O Irã não é um Estado qualquer, [não é] um Estado isolado. O Irã tem uma vizinhança instável, como todo o Oriente Médio, mas também tem vizinhos fortes, que o prestigiam, que o protegem. Portanto, a situação é muito delicada, imprevisível.