Violência em escolas
A pesquisadora Cleo Garcia, doutora em educação pela Universidade de Campinas (Unicamp), estuda episódios de violência extrema em escolas no Brasil. Levantamento conduzido por ela identificou 40 ataques entre 2001 e 2024, com aumento expressivo recente: 25 casos ocorreram entre 2022 e 2024. Todos foram cometidos por homens.
Segundo Garcia, esses crimes frequentemente estão associados a crenças opressoras, como misoginia, racismo e ideologias extremistas. Ela destaca que comunidades online desempenham papel relevante no processo de estimular ataques.
Esses espaços intensificam ressentimentos, frustrações e raiva. Muitos se consideram vítimas de injustiças sociais e veem a diversidade como uma ameaça.
A misoginia é um fenômeno multifatorial. Por um lado, há questões psicológicas de cada um que passam a ser exploradas nessas comunidades. Quem tem baixa tolerância à frustração é mais vulnerável às ideias de ódio. Também é comum entre pessoas que têm dificuldade de assumir responsabilidades. O misógino sempre coloca a culpa nas meninas, diz Cleo.
Por outro lado, devemos destacar a influência sociocultural. Levar em conta a famílias, os locais onde vivem, comunidades que frequentam. Que modelos de masculinidade os meninos estão recebendo na sua formação? Os de que não se pode levar desaforo para casa, que precisam ser agressivos, vencer e destruir o outro, completa.
A construção de um modelo de masculinidade violenta, que hierarquiza e inferioriza as mulheres, é parte essencial das dinâmicas de radicalização.
Entre esses criminosos, há meninos ou homens muito frustrados sexualmente. Tímidos, que não têm namorada e se sentem muito mal por isso. Entendem que, para ser homem e provar masculinidade, têm que ser ricos, poderosos e ter um monte de mulheres. E caem nessa estupidez da masculinidade tóxica, ao encontrar um lugar de pertencimento em comunidades da internet que levam a extremos, analisa Lola.
Desafios e soluções
Para a educadora Cleo Garcia, o ambiente escolar é fundamental na constituição social e emocional dos jovens. O ideal seria que famílias estivessem integradas com as instituições, em permanente diálogo. E que os estudantes tivessem canais de comunicação, mesmo que de forma anônima, para se sentir seguros, falar sobre angústias e dificuldades comuns.
Para isso ocorrer, porém, mudanças mais amplas precisam ser construídas por toda a sociedade.
Não sei se, no geral, profissionais de escolas estão preparados para trabalhar temas complexos de gênero, emoções e até mesmo convivência. E a culpa não é deles. É preciso mais investimento na área de educação. Não dá para cobrar só da escola. Como lidar com problemas de saúde mental, se há inúmeros problemas estruturais? Escolas sem o básico: quadro, biblioteca, internet, reflete Cleo.
A responsabilidade é de toda a sociedade. Investimentos devem ser feitos em conselhos tutelares, sistemas de saúde mental, assistência social, segurança pública, escola, família, instituições de Estado, completa.
A ativista Lola Aronovich concorda que o enfrentamento desse tipo de violência exige diferentes ações, incluindo segurança pública, educação e monitoramento digital.
São várias frentes. Uma é a investigação policial. Tenho certeza que as polícias têm investigado e conseguido impedir muitos crimes. Às vezes, a gente fica sabendo de uma busca e apreensão. Isso deve ser intensificado, diz Lola.
Mas a questão da educação é fundamental. Precisa ter diálogo nas escolas, um espaço para que os adolescentes possam conversar sobre o que veem na internet, com a supervisão de um adulto, de preferência, uma psicóloga. E os pais têm que saber o que os filhos fazem na internet. É responsabilidade deles.
Outra coisa é a regulação das plataformas. Não é possível que elas permitam que tudo isso esteja acontecendo sem fazer nada. Elas sabem tudo que a gente faz na internet, logo sabem muito bem o que acontece nas comunidades. Temos pesquisas mostrando que as plataformas lucram com a misoginia e a radicalização dos jovens. Precisamos dar um fim nisso, complementa.
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