Homens se mobilizam para combater machismo e violência contra a mulher

Por Ana Lúcia Caldas - Repórter da Rádio Nacional*

Homens se mobilizam para combater machismo e violência contra a mulher

Quando o assunto é desconstrução do machismo, grupos, cursos, rodas de conversa e campanhas tentam ajudar, engajando mais os homens no combate à violência contra a mulher e na busca por uma sociedade com mais igualdade.

Se a gente for olhar o número de homens hoje engajados pelo fim da violência contra a mulher, ainda é muito pequeno. Então, é urgente a gente inserir mais homens nessa discussão, diz o psicólogo Flávio Urra, do programa E Agora, José?. Ele avalia que, no enfrentamento à violência, é necessária uma participação maior dos homens.

E Agora, José?

A Lei Maria da Penha determina o comparecimento obrigatório de agressores a programas de recuperação e acompanhamento psicossocial. O programa E Agora, José? Pelo Fim da Violência contra a Mulher é um grupo socioeducativo de responsabilização de homens.

Flávio Urra considera que o homem, de modo geral, não se enxerga como responsável pelo machismo, o que provoca uma resistência muito grande a debater o assunto. O que é maior entre os autores de violência. Nós fazemos grupos com esses homens, autores de violência contra a mulher, [e no caso] deles a resistência é maior ainda, porque eles se sentem injustiçados por estarem ali obrigados a participar do grupo por uma juíza, um juiz.

Os participantes do curso oferecido no âmbito do programa frequentam 20 encontros de duas horas de duração. E, ao fim da participação no projeto, segundo Flávio Urra, é unânime a percepção deles de que se tornaram pessoas melhores.

Estão melhores pais, estão melhores companheiros, trazem isso no discurso que houve uma mudança ali. Se a gente for pensar que já passaram para nós cerca de 2 mil homens e se a gente conseguir, de alguma forma, afetar a vida desses 2 mil homens e das mulheres que convivem com eles, possivelmente está havendo uma mudança na sociedade.

Ouça na Radioagência Nacional

 

Empresas

Com experiência de sete anos como facilitador de grupos de homens, o consultor de empresas Felipe Requião identificou alguns padrões de comportamento recorrentes, como a desresponsabilização individual, com o uso de expressões como eu não faço esse tipo de coisa, não sou eu e tem coisa muito pior que acontece.

Felipe Requião cita ainda a invisibilização do impacto e, em alguns casos, a vitimização, o deslocamento do foco. De acordo com ele, esse tipo de comportamento resulta de um aprendizado cultural, por isso as rodas de conversa são importantes no processo de mudança.

A resistência dos homens em participar de conversas é presente também no mundo corporativo, observa Requião. Tem uma [resistência] que é muito recorrente que é a sensação de perda de espaço. 'Poxa, agora vão tirar espaço dos homens'. Ou 'agora eu não posso mais, não serei considerado para determinadas posições, promoções', etc., afirma.

Felipe Requião ressalta a importância do envolvimento das lideranças na defesa das pautas de diversidade, equidade, inclusão e pertencimento. Para ele, é fundamental que seja uma jornada contínua, não apenas uma palestra, aula ou roda de conversa. Segundo ele, os homens começam a se envolver no problema depois de três ou quatro encontros reflexivos.

O consultor cita estudos que mostram que um ambiente de trabalho com mais igualdade entre homens e mulheres melhora o clima organizacional.

Uma mudança real acontece quando a gente, homem, percebe que não está perdendo. Está se libertando de um modelo que nos restringe, que nos limita, que nos cerceia e que a gente pode fazer diferença performando uma masculinidade de um outro lugar.

Um exemplo de liderança comprometida é o engenheiro Carlos Augusto Souza Carvalho, de 55 anos anos. Ele levou para os funcionários de sua empresa de engenharia a experiência que aprendeu em um grupo de homens. Ponho palestra para eles sobre masculinidade, e o que sai dessas reuniões é impressionante, é realmente enriquecedor, a gente vê o quanto todos os homens, independentemente de classe social, condição financeira, posição no mundo, de opção sexual, têm para falar.

Redes sociais

Na internet, existe um espaço terapêutico online e gratuito, oferecido desde 2017 pelo psicólogo Alexandre Coimbra Amaral. Ele diz que a melhora já começa quando os homens percebem que podem expor suas dores, ou apenas testemunhar conversas sobre machismo e masculinidades.