Para o futurista Ian Beacraft, CEO da consultoria de inovação Signal and Cipher, as empresas que estão usando a inteligência artificial como uma ferramenta para fazer as mesmas coisas que faziam antes estão olhando para a tecnologia da forma errada. Em vez disso, as companhias precisam reestruturar todo o jeito de trabalhar com base na IA para, por exemplo, superar o problema da diferença de velocidade de análises e execução de tarefas entre sistemas inteligentes e trabalhadores humanos. O futurista foi um dos destaques internacionais da programação do São Paulo Innovation Week, que termina nesta sexta-feira, 15.

"Ouço muito sobre o uso de agentes, sobre empresas terem agentes na equipe de software, agentes na empresa que fazem todo tipo de coisa, mas existe uma enorme diferença entre ter agentes de IA e os agentes transformarem a maneira como o trabalho é feito. Ter agentes não significa que você transformou fundamentalmente a natureza do trabalho. Mas se você chegou ao ponto em que os agentes são a forma como o trabalho é feito, você teve que investir muito tempo reimaginando, percebendo e remodelando a maneira como o trabalho é feito", disse Beacraft na noite desta quinta, 14.

Beacraft questiona até mesmo a existência de diferentes divisões em uma empresa. Ele argumenta que a existência de departamentos é, sim, uma resposta aos desafios do passado, especificamente, às limitações da capacidade humana. No modelo tradicional, as companhias precisavam de lugares para o conhecimento especializado crescer e ser centralizado. Com a IA, as barreiras entre as divisões começam a cair.

"Com a IA, estamos vendo expansões de capacidade e competência, onde uma pessoa em um departamento agora pode realizar tarefas e trabalhar com alguém em outro departamento, às vezes, no mesmo nível ou pelo menos com qualidade suficiente para impulsionar o progresso", afirma.

Beacraft exemplifica que o trabalho feito nas empresas hoje é sequencial, com as pessoas executando uma tarefa por vez, e isso muda radicalmente com a IA, que faz múltiplas tarefas ao mesmo tempo e com resultados parecidos ou melhores. O especialista também afirma que as empresas precisam criar um mapa detalhado sobre como os trabalhadores devem usar a IA, indo além da capacidade de uma ferramenta, o que varia de acordo com a natureza de cada negócio.

Substituição de trabalhadores pela IA

Para Beacraft, a substituição de profissionais pela IA não deve ser vista como uma fatalidade tecnológica inevitável, mas como o resultado de escolhas organizacionais fundamentadas em modelos mentais que podem subestimar o valor intrínseco do trabalho humano.

O especialista usa de exemplo o caso da instituição financeira Flora: ao substituir 700 atendentes por bots, a empresa enfrentou uma queda drástica na satisfação dos clientes (NPS) e um aumento nas reclamações. A experiência demonstrou que o capital humano aporta um elemento cultural e uma capacidade de navegar em situações complexas que os algoritmos são incapazes de replicar, evidenciando que cortes de custos sem a compreensão da geração de valor podem resultar em prejuízos operacionais.

A tese de Beacraft sustenta que a IA assumirá a vasta maioria das tarefas de execução, estimadas entre 95% e 99% das atividades atuais, o que torna inviável a competição humana baseada em volume, velocidade ou escala. Por isso, ele propõe uma mudança radical na hierarquia laboral: o fim do trabalhador como mero operador em favor de novas funções de "designers" e "arquitetos". Enquanto a máquina executa o trabalho braçal ou repetitivo, cabe ao humano projetar fluxos de trabalho e definir a intenção, o julgamento ético e os critérios de sucesso da organização.

Segundo Beacraft, o uso da IA deve resultar na criação da chamada Architected Information for Organizational Systems (AIOS, Informação Arquitetada para Sistemas Organizacionais). É por meio dela que as companhias podem preencher as lacunas das plataformas de IA ao codificar o "porquê" das decisões que serão tomadas no negócio. Em experimentos com organizações agentais (compostas por agentes de IA), segundo o futurista, o AIOS serviu como a "bússola" que guiou os agentes de IA.

Por fim, o Beacraft pondera sobre a ansiedade e a perda de funções que acompanham o avanço tecnológico, reconhecendo que a superioridade da IA em tarefas específicas pode impactar o senso de utilidade do trabalhador. A solução proposta, entretanto, não é a resistência à tecnologia, mas a colaboração entre homens e máquinas.

Nesse cenário, diz, a automação deve ser direcionada a processos obsoletos, permitindo que as empresas promovam seus talentos para funções que exijam sabedoria, julgamento crítico e design de sistemas. Desse modo, o sucesso corporativo na era da inteligência artificial dependerá menos de demissões e mais da capacidade de integrar a eficiência da IA à criatividade humana.

SPIW

O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta-feira, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.