O Brasil terá de ir além de um ajuste fiscal pontual se quiser conviver com taxas de juros civilizadas nos próximos anos, avalia o professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Márcio Holland. Em entrevista ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, na noite da quinta-feira, 27, após o lançamento do livro Taxa de Juros no Brasil - Caminhos para o Brasil conviver com taxas de juros civilizadas, o economista disse que o País precisa atacar um conjunto de fatores que elevam o prêmio de risco, reduzem a potência da política monetária e tornam a inflação mais resiliente.
Segundo Holland, o ajuste fiscal é importante, mas o essencial é mostrar consistência de resultados ao longo do tempo para acalmar o risco Brasil e convencer investidores e analistas de que a dívida pública seguirá uma trajetória sustentável. Além de reduzir a dívida, é preciso alongar seu perfil: "Não adianta só a dívida cair se ela permanecer concentrada no curto prazo, o que mantém o custo alto."
O economista afirmou que os motivos que levam à persistência dos juros elevados são multidimensionais e, em certa medida, um "puzzle", já que o País viveu períodos de superávit primário, queda da dívida e estabilização de preços a partir do Plano Real, além de operar sob metas de inflação e câmbio flutuante - arranjos vistos como boas práticas. Ainda assim, disse, o Brasil continua há décadas entre as maiores taxas do mundo.
Entre as causas apontadas, Holland destacou a quantidade de recursos que jorra na economia mesmo quando o Banco Central tenta conter a demanda com juros altos, como fundos regionais, crédito direcionado e incentivos fiscais, que sustentariam a atividade e dificultariam o combate à inflação.
Para o ex-secretário de Política Econômica, o crédito direcionado - inclusive por meio de bancos públicos - libera recursos independentemente da orientação de política monetária e, por isso, tira potência do aperto promovido pelo Banco Central. Holland ressaltou que remover apenas um desses elementos não resolve: sem enfrentar os demais, os juros reais tendem a continuar elevados.
Outro ponto central, segundo o economista, é a indexação, com receitas, despesas e preços atrelados à inflação passada, o que cria uma trava e dá um piso à inflação, mesmo em ambiente de inflação relativamente baixa. O Plano Real, afirmou, cumpriu seu papel, mas foi incompleto nesse ponto, e o País ainda precisa avançar num processo de desindexação. Como exemplo, citou a indexação de aluguéis, que, em sua visão, poderia ser resolvida por oferta e demanda (vacância) sem correção automática por índice.
Holland também mencionou o salário mínimo, que combina alta indexação com ganho real acima da inflação, espalhando reajustes por salários e preços.
O economista citou ainda o fato de a economia brasileira ser muito fechada, o que dificulta que ajustes domésticos de preços ocorram à luz de movimentos internacionais. Isso quer dizer que, quando o mundo oferece bens e serviços mais baratos, o Brasil não captura plenamente esse alívio. O conjunto de travas, afirmou Holland, contribui para inflação resiliente, dívida muito cara e prêmio de risco maior - fatores que empurram as taxas de juros para cima.
Questionado sobre dominância fiscal, Holland disse que o Brasil ainda não chegou lá, mas compara a situação a estar perto do precipício: quando o risco se aproxima, o País faz algum ajuste, alivia os juros por um tempo e depois volta a conviver com pressões.
O economista se mostrou otimista com a possibilidade de juros de um dígito, afirmando que há condições para isso com um "ajuste fiscal legal" no ano que vem. Na sua avaliação, qualquer que seja o governo, haverá necessidade de correção de gastos em 2027, sob pena de inviabilizar a governabilidade. Esse esforço, disse, poderia abrir espaço para a Selic ir a 9%, lembrando que antes do choque do petróleo havia casas que projetavam taxa abaixo de um dígito.
Sobre a possibilidade de elevar a meta de inflação, Holland afirmou que o País não está preparado para esse debate agora e que a discussão pode aumentar a desconfiança na política macroeconômica. O economista observou que a meta já conta com banda de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo, com teto de 4,5%, o que considera "bem generoso", e diz não ver motivo para alterar o parâmetro.