Dólar sobe e Bolsa recua com cenário político e dados de inflação no radar
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar fechou em alta de 0,47%, a R$ 5,1252, nesta sexta-feira (11), após o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgar os novos dados de inflação e informar que o Brasil teve deflação em agosto.
Durante a manhã, a moeda chegou a registrar queda, acompanhando o recuo do petróleo e dos juros americanos, mas reverteu o movimento ao longo do dia, em meio à maior cautela dos investidores com o cenário político. O economista sênior da Nomad Vitor Kayo afirma que o noticiário político contribuiu para a alta do dólar, sobretudo após uma decisão do Judiciário determinar a investigação de um dos candidatos à presidência.
Documentos da Polícia Federal e da PGR (Procuradoria-Geral da República) que tiveram o sigilo levantado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) apontam que o senador Flávio Bolsonaro era interlocutor direto do ex-banqueiro Daniel Vorcaro na negociação para investimentos no filme "Dark Horse", que conta a história de seu pai, Jair Bolsonaro.
O material também indica que Eduardo Bolsonaro, outro filho do ex-presidente e que vive nos Estados Unidos, atuava como gestor do dinheiro levantado para o longa-metragem.
Na Bolsa, o Ibovespa fechou em queda de 0,56%, aos 187.206 pontos. O índice acompanhou a repercussão dos novos dados de inflação dos Estados Unidos.
Nos EUA, o CPI (índice de preços ao consumidor) acelerou em agosto, no último dado de inflação antes da próxima reunião do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), marcada para os dias 15 e 16 de setembro. A decisão ocorrerá nos mesmos dias das reuniões do Copom, que também define a taxa básica de juros brasileira, na chamada superquarta.
No Brasil, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) recuou 0,32% em agosto, na primeira deflação em um ano. A queda foi puxada principalmente pela conta de luz, que ficou 7,63% mais barata sob impacto temporário do bônus de Itaipu. Também houve redução nos preços de passagens aéreas (-13,17%), além de alimentos e combustíveis.
Marcelo Bassani, economista e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, avalia o resultado como positivo para a economia e afirma que o dado abre espaço para mais um corte na taxa de juros na próxima reunião do Copom.
Já nos Estados Unidos, a aceleração dos preços ao consumidor, com o avanço do custo da gasolina, reforçou as expectativas dos mercados financeiros em relação à próxima decisão do Fed.
Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital, afirma que a aceleração da inflação americana foi uma surpresa. "Acredito que o dado contribui para o Banco Central americano aumentar as taxas de juros na semana que vem, tendo em vista que os dados de inflação foram acima das expectativas e não foram capazes de demonstrar uma tendência de desinflação na economia americana", diz.
Ele aponta, no entanto, que o Fed ainda tem motivos para manter as taxas estáveis, entre eles, revisões metodológicas no PCE (principal indicador de inflação do Fed) e o fato de que uma alta dos juros antes das eleições de meio de mandato pode ser interpretada como um ato político.
No fechamento de mercado desta sexta, o FedWatch, do CME Group, registrava 86,5% de chance de elevação dos juros para o intervalo entre 3,75% e 4%, contra 13,5% de probabilidade de manutenção da faixa atual, entre 3,5% e 3,75%.
Mesmo com a aceleração da inflação americana, as Bolsas de Nova York fecharam em alta. O Dow Jones avançou 0,98%, enquanto o S&P 500 subiu 0,86% e o Nasdaq teve alta de 0,96%.
No Brasil, os desdobramentos da crise no STF também permanecem no radar do mercado. O presidente do tribunal, Edson Fachin, pediu nesta sexta-feira ao ministro André Mendonça que retire, em até 24 horas, o sigilo de todos os documentos que integram as investigações sobre o caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro, na corte.
Fachin atendeu a um pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República), assinado pelo vice-procurador-geral Hindemburgo Chateaubriand, e a solicitações dos ministros Alexandre de Moraes, que mantinha relações com Vorcaro, e Cristiano Zanin, que pediu acesso completo ao celular do empresário.
Nos últimos dias, o mercado também vem sendo influenciado pelos desdobramentos da guerra no Irã. O preço do petróleo começou a sessão desta sexta em alta e chegou a se aproximar de US$ 110, mas passou a cair em seguida e acumulava desvalorização de quase 4% após a informação de uma possível reunião, nos próximos dias, entre os chanceleres do Irã e de outros países do Golfo Pérsico para discutir a situação do estreito de Hormuz. A passagem está bloqueada para a navegação desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.
Às 17h32, o contrato para abril do Brent, referência mundial, era negociado a US$ 104, com queda de 2,61%.
A ofensiva dos houthis, grupo do Iêmen aliado ao Irã, avançou nesta sexta rumo ao controle do estratégico estreito de Bab el-Mandeb, porta de acesso ao sul do mar Vermelho. Os rebeldes apoiados pelo Irã tomaram mais uma cidade e uma ilha importante para o controle do tráfego marítimo na região.
Além disso, imagens de satélite mostraram uma grande coluna de fumaça subindo de um oleoduto que liga campos produtores de petróleo sauditas, no leste da península Arábica, ao porto de Yanbu, no mar Vermelho.
A escalada ocorre no mesmo dia em que o presidente Donald Trump participou de uma cerimônia pelos 25 anos do 11 de Setembro em Nova York. O republicano também foi ao memorial no Pentágono, nos arredores de Washington.
Em seu discurso, Trump afirmou que os Estados Unidos jamais esquecerão os atentados e traçou um paralelo entre a reação americana à tragédia há 25 anos e os conflitos enfrentados pelo país atualmente. "É por isso que lutamos hoje", disse Trump. "Não temos escolha. Só pode haver vitória. Lutamos com força. Lutamos para vencer."
Na véspera (10), os houthis anunciaram ter tomado o controle da cidade de Mocha, considerada estratégica para o escoamento do petróleo da Arábia Saudita.
A tentativa dos houthis é ampliar o tráfego marítimo pelo estreito de Bab el-Mandeb, ao sul do porto. A rota passou a ser utilizada para escoar até 70% da produção de petróleo de Riad, segundo maior produtor da commodity no mundo, após a obstrução do estreito de Hormuz.
Após cederem na maior parte do dia, as taxas dos DIs se recuperaram durante a tarde e fecharam próximas da estabilidade, em meio ao receio dos investidores de que a divulgação dos documentos do caso Master possa prejudicar a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência. O mercado vê a candidatura do senador com preferência por avaliar que seu eventual governo teria maior compromisso com o ajuste fiscal.