Filha de uma mulher que chegou a Florianópolis aos 10 anos para trabalhar como empregada doméstica, Cleuse Soares cresceu na periferia da capital catarinense e chegou à universidade graças ao esforço da mãe para que tivesse mais oportunidades.

Jornalista, passou a circular pelos ambientes de empreendedorismo e tecnologia e percebeu uma contradição: enquanto a cidade se consolidava como polo de inovação, moradores das periferias continuavam distantes dessas oportunidades.

Não era falta de talento. Era falta de acesso, conexão e oportunidade, afirma.

Dessa inquietação nasceu, em 2019, o Morro do Silício, hoje Morro do Silício Tech.

O Sebrae passou a fazer parte dessa trajetória com capacitações, conexões e acesso a espaços como Startup Summit e Delas Summit. Em 2025, mais de 60 mulheres participaram do Delas Summit por meio dessa articulação. A parceria também esteve presente no evento Celebrar para Avançar, que reuniu quase 200 mulheres negras em Florianópolis.

As formações ajudaram a estruturar o Morro do Silício como negócio, aprofundando conhecimentos sobre mercado, proposta de valor e sustentabilidade financeira. Eu tive acesso, me capacitei, ampliei minhas redes e transformei essas oportunidades em algo que não termina em mim, diz Cleuse, que conquistou o primeiro lugar na categoria MEI da etapa estadual do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios deste ano.

Hoje, o Morro do Silício Tech conecta principalmente jovens, mulheres, empreendedores e afroempreendedores a formação, tecnologia, mercado e redes de relacionamento. A atuação inclui mentorias, capacitações, consultorias e projetos com empresas e instituições.

O conhecimento desenvolvido nos territórios também passou a ser oferecido como serviço, fortalecendo uma frente de atuação B2B (venda de empresas para outras empresas).

Eu não precisava escolher entre impacto e negócio. O negócio pode financiar o impacto, e o impacto pode ser justamente o diferencial competitivo do negócio, afirma Cleuse.

Uma das trajetórias impulsionadas por essa rede é a de Maritza Fabiane, a Fabi, da Morena Marina Store. Mulher negra, mãe solo de quatro filhos e formada em moda, ela criou uma boutique na periferia e, durante a pandemia, mobilizou costureiras do bairro Monte Cristo para produzir máscaras e gerar renda.

Hoje, o espaço se tornou um hub de serviços de beleza, com quatro profissionais, mulheres negras e periféricas. Para Cleuse, a história mostra como uma oportunidade pode se multiplicar: Quando uma mulher transforma sua própria trajetória e começa a gerar oportunidade para outras mulheres, o impacto passa a circular dentro do território.

A principal barreira enfrentada pelos empreendedores das periferias, na avaliação da empreendedora, pode ser resumida em uma palavra: acesso a crédito, tecnologia, informação, mercado e redes de relacionamento. Agora, o Morro do Silício Tech quer ampliar essas conexões e usar também tecnologia e inteligência artificial para mapear talentos, negócios e oportunidades, aproximando pequenos negócios a novos mercados.

Esse movimento ganha força quando consumidores e empresas escolhem fazer negócios com pequenas empresas. Cada contratação pode movimentar fornecedores, prestadores de serviços e famílias, mantendo recursos no território e criando novas referências para a comunidade. Precisamos avançar da lógica de ajudar pequenas empresas para a lógica de fazer negócios com elas, defende Cleuse.

Nós começamos criando pontes. Agora queremos transformar essas conexões em inteligência, mercado e escala, diz Cleuse.

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