O 3ºBPM e os 100 mil tijolos de sua construção
Paralelamente à série de entrevistas com veteranos do 3º Batalhão de Polícia Militar (3ºBPM), o trabalho de resgate histórico da Unidade tem permitido localizar documentos e outros personagens ligados à trajetória do batalhão. A partir de um dossiê referente à construção do quartel, encontrado no acervo do museu histórico Orty de Magalhães Machado, o 3ºBPM chegou ao senhor Neri Krailing, filho de Agenor João Krailing, proprietário da antiga olaria São Pedro. Agenor foi o responsável pelo fornecimento de aproximadamente 100 mil tijolos utilizados na edificação do prédio.
O dossiê localizado não é extenso, possui apenas 11 páginas, mas revela-se extremamente rico pelas informações que reúne. Em seu conteúdo, a documentação registra comunicações entre o oficial encarregado das obras e o comandante-geral da Corporação, bem como entre este e o secretário de Segurança Pública. Também constam requerimentos encaminhados por fornecedores solicitando o pagamento de materiais já entregues, entre outras informações.
Entre os documentos encontrados, um deles chama particularmente a atenção. Trata-se do ofício encaminhado, em 12 de março de 1949, pelo senhor Agenor João Kreiling ao 1º Tenente João Ferreira de Rezende, responsável pela condução das obras. No documento, Kreiling solicitava a intervenção do oficial junto ao Estado para o pagamento de 100 mil tijolos entregues entre abril e maio de 1948.
Isso motivou uma busca por seus descendentes, haja vista que Agenor faleceu no ano de 1984. Nesse contexto, o 3ºBPM conseguiu localizar o senhor Neri Krailing, filho de Agenor, que relatou detalhes valiosos sobre a olaria, o fornecimento de tijolos para a construção do quartel e o cotidiano daquele período em Canoinhas. Neri é canoinhense, nascido em 10/08/1944. Seus pais eram Agenor João Krailing e Isaura Massaneiro Krailing.
Quando nasceu, seu pai já possuía a olaria. Ela era denominada São Pedro e localizava-se no bairro Água Verde. Segundo Neri, “a olaria teve início por volta de 1940 e ficava exatamente onde hoje existe a loja Schumacher Construshop, à margem da rodovia BR-280”. Porém, naquele período, ainda não existia a BR-280. Conforme Neri, “havia apenas uma estrada de terra que ligava o Centro de Canoinhas ao Salto da Água Verde e ao município de Major Vieira.”
A olaria era operada por locomóvel, pois na época ainda não existia rede trifásica no local. Seu pai fabricava tijolos maciços, por considerá-los de maior qualidade, embora fossem de fabricação mais difícil. A matéria-prima era retirada nas proximidades da olaria. Neri lembra que “o barreiro ainda existe. Fica entre o rio Água Verde e a avenida Rubens Ribeiro da Silva.” O trabalho era bastante árduo, pois o tijolo maciço exigia um processo complexo de preparação e queima. Segundo ele, “em períodos de tempo bom, o processo de secagem levava aproximadamente 15 dias.”
Neri lembra que, em períodos de boa produtividade, era possível fabricar cerca de mil tijolos em um dia, embora a fabricação não ocorresse diariamente. Já no inverno, a produção tornava-se quase impossível, não sendo incomum a perda de tijolos em processo de secagem, que minguavam em caso de geada. Com base nessas informações, é possível supor que a produção das 100 mil unidades destinadas à construção do quartel demandou um período bastante prolongado, “bem mais que um ano”, destaca.
Sobre o fornecimento de tijolos, Neri guarda reminiscências: “Eu ainda era criança e lembro de ter ido junto com meu pai algumas vezes levar os tijolos para o quartel”. O transporte era realizado em duas carroças, cada uma puxada por uma parelha de cavalos (dois animais). As mesmas carroças utilizadas para transportar o barro do local de extração até a olaria eram, posteriormente, empregadas na entrega dos tijolos aos clientes.
Interessante mencionar a quantidade de tijolos carregados por vez. “Eu me lembro que cada carroça levava mais ou menos 450 tijolos por viagem”. O dado ajuda a dimensionar o expressivo número de deslocamentos necessários até que fossem entregues as 100 mil unidades encomendadas. Durante as entregas, Neri brincava no prédio do quartel, ainda em construção.
O transporte por carroças durou até por volta de 1950, quando seu pai adquiriu um caminhão Chevrolet, ano 1946, modelo Gigante. Segundo Neri, “é possível que o dinheiro para a aquisição do caminhão tenha sido o do fornecimento dos tijolos ao quartel, pois, embora tenha demorado, meu pai recebeu o pagamento”.
Do período em que a olaria esteve em funcionamento, Neri possui duas fotografias, ambas da década de 1960. Uma delas é aérea e mostra todo o complexo formado pelas instalações da olaria e pela casa da família. A casa, que não existe mais, era um bonito e amplo sobrado, com dois pavimentos e uma varanda frontal que se estendia por toda a fachada da construção.
Ele lembra que “durante a construção da BR-280, os engenheiros foram conversar com meu pai, pois a rodovia passaria rente ao muro da casa. Meu pai tinha personalidade forte e disse que não permitiria que mexessem no muro e não mexeram”, conta, sorrindo.
A segunda fotografia mostra Neri ao lado de outras pessoas ligadas ao convívio da família. Ao fundo da imagem, aparecem parte das instalações da olaria, ajudando a retratar o ambiente e a rotina daquele período. Entre as lembranças preservadas, Neri também guarda um retrato do pai, falecido em 1984.
Décadas depois, os tijolos da extinta olaria São Pedro continuam firmes a sustentar o quartel do 3ºBPM. As paredes duplas da construção e o próprio porte do edifício dão a dimensão do enorme volume de material empregado e ajudam a compreender por que foram necessárias cerca de 100 mil unidades do material. Em alguns pontos do alicerce, esses tijolos ainda permanecem aparentes, como marcas silenciosas de uma história que continua viva em um dos edifícios mais conhecidos de Canoinhas e um dos mais expressivos da Polícia Militar Catarinense.