Do sonho de ser ferroviário à dedicação ao 3º BPM: a história do veterano Pedro Vieira
Décimo quarto entrevistado da série com veteranos do 3º Batalhão de Polícia Militar, o cabo Pedro Vieira relembra sua infância no Matão, a passagem pelo Exército, o ingresso na Polícia Militar em 1965 e quase 30 anos de serviços prestados à corporação, marcados por histórias, desafios e compromisso com a segurança pública.
Dando continuidade à série de entrevistas com veteranos do 3º Batalhão de Polícia Militar (3º BPM), o décimo quarto entrevistado é o cabo veterano Pedro Vieira, personagem de uma trajetória profundamente ligada à história da unidade. Durante quase três décadas de serviço, exerceu as mais diversas funções e testemunhou importantes transformações da Polícia Militar e da região.
Pedro Vieira é filho de Thelemaco Vieira e Arminda Forbek. Nasceu na localidade de Matão, interior de Canoinhas, onde também cursou o ensino primário na antiga escola isolada e viveu sua infância, adolescência e juventude.
Ao completar 18 anos, entre 1961 e 1962, foi convocado para o serviço militar obrigatório, servindo no então 2º Batalhão Ferroviário, sediado em Rio Negro (PR), unidade atualmente instalada em Araguari (MG).
O Batalhão Ferroviário era responsável pela construção da Ferrovia Tronco Principal Sul, que, em Santa Catarina, liga Mafra a Lages. Pedro recorda que participou da construção do Viaduto nº 18, estrutura que, segundo relata, possui aproximadamente 1.200 metros de extensão.
Naquela época, os dormentes eram assentados diretamente sobre o solo, antes da implantação do lastro de pedras. "Eu lembro do serviço de descarregar trilhos e dormentes", relembra. O acampamento militar ficava na estação Taiti, localizada em Ponte Alta do Norte.
Concluído o serviço militar em 1962, retornou para a casa da família, na estrada entre Taunay e Matão. Passou então a trabalhar no corte de lenha destinada às locomotivas a vapor da ferrovia.
"Os trens ainda eram movidos à lenha, as famosas marias-fumaças", recorda. Seu trabalho consistia exclusivamente no corte da madeira, enquanto outra pessoa realizava o transporte até a estação ferroviária de Taunay. Era uma atividade pesada e totalmente manual.
Apesar das dificuldades, Pedro alimentava um sonho: tornar-se ferroviário.
"Soube que a ferrovia estava contratando trabalhadores para fazer o empedramento dos trilhos", conta. Foi até Três Barras para buscar uma vaga, mas, ao retornar com toda a documentação exigida, recebeu a notícia de que as contratações haviam sido encerradas no dia anterior.
"Você não é de sorte. Assim que você saiu do escritório veio a ordem de Curitiba encerrando as admissões."
Sem alternativas, voltou ao trabalho no corte de lenha.
O ingresso na Polícia Militar
Em 1965, o concunhado, Célio Culing, informou que a Polícia Militar estava recrutando novos soldados.
Na época, a profissão era vista com receio devido à grande quantidade de crimes graves registrados principalmente nas regiões serranas.
Pedro respondeu de imediato:
"Eu não vou dar meu couro pra essa turma aí nas serras!"
Célio rebateu com bom humor:
"Quem está no inferno, não custa abraçar o diabo."
A frase o fez refletir. Diante da vida difícil e da falta de perspectivas, resolveu fazer a inscrição no 3º BPM.
Após realizar provas, testes psicotécnicos e avaliações de diversas disciplinas, os candidatos receberam uma orientação curiosa: acompanhar o programa "Utilidade Pública", da Rádio Canoinhas, onde seriam divulgadas as datas das próximas etapas.
Como morava com o pai, que não gostava de ouvir rádio, acabou perdendo a convocação.
"Certo dia eu estava ouvindo com o maior cuidado. Quando começou o programa, meu pai entrou no quarto e tive que desligar."
Dias depois, encontrou o concunhado, que perguntou por que não havia comparecido aos testes físicos.
Sem perder tempo, caminhou cerca de 12 quilômetros até o quartel.
Foi recebido pelo sargento Braguinha, que verificou que sua documentação ainda não havia sido enviada para Florianópolis e autorizou a realização do teste físico, aplicado na antiga quadra de esportes onde hoje funciona o Fórum da Comarca de Canoinhas.
Aprovado, recebeu nova orientação para acompanhar o programa de rádio. Desta vez conseguiu ouvir sua convocação.
Em 19 de maio de 1965 ingressou oficialmente na Polícia Militar de Santa Catarina.
Por ser reservista de primeira categoria do Exército Brasileiro, não precisou realizar curso de formação.
Entre seus colegas de turma estava Deonito Daichmann, posteriormente promovido até o posto de subtenente.
Os primeiros anos de serviço
Logo após a inclusão, parte da turma foi transferida para a Companhia de Curitibanos, que então integrava o 3º BPM.
Pedro viajou sozinho, utilizando caronas pelo caminho.
"Em Monte Castelo pousei na casa de um conhecido, Dale Lisboa. No outro dia consegui chegar a Curitibanos."
A primeira impressão da cidade não foi das melhores.
Ainda vestido com roupas civis, ouviu dois homens comentarem ao ver um policial fardado:
"E lá vai o meganha."
Apesar da impressão inicial, afirma que não enfrentou maiores problemas durante o período em que permaneceu na cidade.
Pouco tempo depois, sua esposa e o filho mudaram-se para Curitibanos. A adaptação, porém, não aconteceu.
Graças à amizade de sua mãe com a esposa do então comandante do batalhão, coronel Roque de Oliveira Mendes, conseguiu a transferência de volta para Canoinhas.
Na viagem de retorno viveu um episódio que nunca esqueceu.
Ao lado do amigo Daichmann, carregava um despertador que permaneceu funcionando durante toda a viagem.
"Fomos ouvindo o 'tec-tec-tec' o caminho inteiro. Durante muitos anos, quando nos encontrávamos, lembrávamos dessa história e dávamos risada."
Uma carreira dedicada ao 3º BPM
De volta a Canoinhas, permaneceu no 3º BPM até o encerramento da carreira, somando quase 30 anos de serviços prestados.
Naquela época, a área de atuação da unidade era muito maior que a atual, abrangendo inclusive localidades como Joinville.
O quartel possuía estrutura própria para praticamente todas as necessidades da tropa.
Havia armazém, enfermaria, barbearia, rancho, açougue e até produção de charque.
Ao longo da carreira, Pedro trabalhou na patrulha, almoxarifado, armazém, rancho e também como estafeta, função responsável pelo transporte de mensagens oficiais.
"Houve um período em que o setor de telégrafo recebia informações de diversos órgãos do Estado. Funcionava como uma central de mensagens oficiais, e o estafeta era quem fazia as entregas."
Ocorrências marcantes
Entre as ocorrências mais marcantes está um assalto contra um casal de idosos, em Papanduva, por volta de 1970.
Após o crime, os três assaltantes fugiram em direção a Curitibanos.
Foi organizada uma grande operação policial, que contou inclusive com o apoio da imprensa no repasse de informações.
A perseguição terminou entre Curitibanos e Rio do Sul, quando houve troca de tiros que resultou na morte dos criminosos.
Pedro recorda que, naquele período, ambas as cidades pertenciam à área de responsabilidade do 3º BPM.
Outro momento inesquecível foi o policiamento durante a inauguração da ponte sobre o Rio Negro, ligando Três Barras a São Mateus do Sul (PR), realizada em 26 de outubro de 1969.
"Vieram os dois governadores, do Paraná e de Santa Catarina."
A obra representou um marco para a região, substituindo a antiga travessia por balsa.
Orgulho da missão cumprida
Décadas após deixar a ativa, Pedro Vieira guarda com carinho as lembranças da carreira construída na Polícia Militar.
Na memória permanecem os amigos, as histórias, os desafios e as conquistas acumuladas ao longo de quase três décadas de serviço.
Se na juventude sonhava em trabalhar na ferrovia, foi na Polícia Militar de Santa Catarina que encontrou sua verdadeira vocação.
Sua história se confunde com a do 3º BPM, assim como o batalhão preserva, entre seus veteranos, a memória de homens que dedicaram a vida ao serviço da sociedade.