Subtenente Ilandir de Barros Lima e o Primeiro Curso de Formação de Sargentos do 3ºBPM
Dando continuidade à série de entrevistas com veteranos do 3º Batalhão de Polícia Militar (3º BPM), o décimo quinto entrevistado é o subtenente veterano Ilandir de Barros Lima, militar formado em Canoinhas na década de 1960 que percorreu boa parte do Estado a serviço da Polícia Militar catarinense.
Ilandir nasceu em 30 de julho de 1942, na localidade de Arroio Grande, interior do município de Papanduva. À época, Papanduva era um distrito de Canoinhas, portanto, o veterano é canoinhense de nascimento. É filho de João Vicente de Lima e de Zulmira Edmee Barros Lima. Aliado aos irmãos, somam-se cinco os filhos do casal: Ieda; Ilson (também subtenente veterano); Ionir; Ivete e o próprio Ilandir.
A necessidade de estudar fez com que parte da família se mudasse para Curitiba. “Entre 1956 e 1961, fui estudar e morar com meus irmãos Ilson, Ionir e Ivete em Curitiba. Retornei a Canoinhas no dia 14 de setembro de 1961 na companhia de meu irmão Ilson”. Ao retornarem, os irmãos passaram a residir na localidade de Pinheiros, onde moravam seus pais.
Ilson havia servido ao Exército por seis anos até ser licenciado em 1961. “Meu irmão somente deixou o Exército, onde ocupava a graduação de cabo, porque na época Jânio Quadros determinou que os terceiros-sargentos e cabos que não possuíssem um tal de ‘exame de suficiência’ fossem licenciados”. O ocorrido acabaria por se tornar uma oportunidade em um futuro breve…
Estavam, na casa dos pais, “sem eira nem beira”, trabalhando na lavoura, quando tomaram conhecimento da Campanha de Inclusão na Polícia Militar. Segundo Ilandir, “vislumbramos uma luz no fim do túnel, pegamos a mala de garupa e rumamos para Canoinhas: duas horas para percorrer 40km em estrada de terra, via Rio dos Pardos”.
Na cidade, “nos alojamos na pensão da Dona Chiquinha, ao lado da antiga Rodoviária (que era anexa a um bar). Era carne moída todos os dias…”. Mesmo assim, o ano de 1962 foi marcante para os dois irmãos. Após os exames de admissão, Ilson ingressou na Polícia Militar de Santa Catarina no dia 1º de março de 1962. Ilandir ingressou logo após, como soldado recruta, em 11 de maio do mesmo ano. A inclusão de ambos se deu no 3º BPM.
Poucos meses depois, os irmãos lograram êxito em novos exames de admissão e ingressaram no Curso de Formação de Sargentos (CFS), ocorrido no batalhão, “o primeiro curso de sargentos fora da Capital”. Enquanto aguardava o início do CFS, na condição de soldado recruta, o veterano destaca: “passei a trabalhar na Secretaria, auxiliando o 1º Sargento Arlindo Rosa Peres, na parte burocrática”.
O curso teve duração aproximada de nove meses. “Em outubro de 1962, comecei a frequentar o CFS, formando-me em 25 de julho de 1963”. Relembra que, “uma vez promovidos, nos mudamos para outro local e fazíamos refeição no antigo Hotel Guarani, em frente a Igreja Matriz, de propriedade de Dona Asta. Eita coisa boa! Ali tinha comida boa e a vontade!”
A relação completa de seus colegas é a seguinte: Floriano Groskof, Adir de Sá Ribas, Bernardo Benonimo da Silva, Silvio Fritz Bueno, Victor Mendes, João Eddeberto Nolasco, Rui Paulo Pereira, Alcides Pires, Ilson Vicente de Lima, Ilandir de Barros Lima, Marçal Pereira de Morais e Anselmo Guaracy Nunes Reynaud. O veterano possui algumas fotos do período de curso. Guarda, inclusive, o convite da formatura.
Os sargentos eram preparados para as mais diversas funções, até mesmo a de delegado de polícia, exercida por Ilandir, seu irmão Ilson e pela maioria de seus colegas de turma ao longo de suas carreiras. Ilson, por exemplo, foi delegado de polícia e comandante de destacamento em Papanduva.
No período, o 3º BPM era comandado pelo tenente-coronel Wallace Capela, tendo como subcomandante o major Décio José do Lago. A companhia e a direção do Curso de Formação de Sargentos (CFS) ficavam sob a responsabilidade do capitão Rogério Afonso Schmidt.
A oficialidade contava com os segundos-tenentes: Sestílio Ângelo Franzosi, José Manoel Nolasco, Taltíbio Del Vale Y Araújo, Dinoh Antônio Corte e Silvio Venzon Filho, além do aspirante a oficial Dulcemar Alcebíades Alves, que atuava como contador e tesoureiro.
Os auxiliares de tesouraria eram o subtenente Dulcídio da Silveira, o terceiro-sargento Joriel Manoel Alves e o cabo Anselmo Guaracy Nunes Renaux (primeiro colocado no CFS). O secretário do batalhão era o primeiro-sargento Arlindo Rosa Peres, encarregado dos boletins, e o sargenteante era o primeiro-sargento João Laurentino Ferreira Júnior. Os motoristas eram o primeiro-sargento Mário Valente e o soldado Rocha. O corneteiro, pois no período a rotina do batalhão adotava ainda os toques de corneta, era o soldado Américo.
O corpo de sargentos e cabos era formado pelos segundos-sargentos Genésio e João Manoel Joaquim; e pelos terceiros-sargentos Joriel Manoel Alves (furriel e monitor do CFS), Celso Carlos, Moacir Luiz (monitor do CFS) e Eufrásio Corrêa (chefe da estação de rádio, portanto, o telegrafista do quartel). Entre os cabos, destacavam-se: Wagner (apelidado de Fiépe), Prazer e Leria, além de outros “um ou dois cabos cujos nomes não me recordo”.
Alguns detalhes pitorescos estão vivos na memória do veterano. “Curioso que o batalhão só contava com 1 caminhão Dodge, velho, recebido em 1963 da Capital e que tinha 2 motoristas”. A situação material era precária, “havia deficiência de armas, munições, transportes, uniformes, chegando ao ponto de um sentinela tirar serviço de macacão de posto de combustível e chuteira particular”.
No que toca à condição financeira dos militares, Ilandir destaca que “nenhum membro do efetivo, tampouco os oficiais, possuía qualquer tipo de veículo, nem bicicleta”. Existiam também algumas atividades inusitadas. Havia, por exemplo, a piscicultura e o cultivo de hortaliças.
Para os militares que cuidavam dessas atividades não faltavam os apelidos engraçados, típicos da caserna. Ilandir comenta que “o soldado que atendia os açudes foi apelidado de ‘Pai das Carpas’. Já o cabo velho que atendia a horta foi apelidado de ‘Cabo da Horta’”.
Ele recorda-se de um fato bastante marcante ocorrido em janeiro de 1964. A Companhia de Porto União (1ª Cia/3º BPM) inauguraria um novo prédio da subunidade. Como o efetivo local era reduzido, a tropa da sede do batalhão foi deslocada para o desfile.
O batalhão não possuía veículo apropriado para o transporte de tropa. “Solução: o DER (atual SIE) forneceu ‘caçambas’ para o deslocamento. Percorremos uma distância de mais de 80 km em estrada de chão, empoeirada e sem a mínima conservação”. O veterano lembra do itinerário da época: “o percurso era Canoinhas - Rio dos Pardos - Pinheiros - São Pascoal - Porto União. Contudo, mesmo com todos os percalços, desfilamos garbosamente!”.
Em relação ao CFS, poucos dias antes da formatura, em 20 de julho de 1963, o jornal Correio do Norte anunciava: “Baile de Formatura. Hoje, no Salão Bechel, os formandos do Curso de Sargentos do 3º Batalhão da Polícia Militar de Canoinhas oferecerão um grandioso baile em regozijo ao encerramento do curso e às novas promoções”.
Na edição seguinte, o mesmo jornal detalhou a formatura. “Em brilhante solenidade realizou-se dia 25, quinta-feira, o encerramento do Curso de Formação de Sargentos do 3º Batalhão de Polícia Militar. Ao major Décio José do Lago, comandante, e ao subcomandante do 3º BPM, capitão Rogério Afonso Schmidt, aos professores do curso, dr. Osvaldo Segundo de Oliveira e Maria Licéia Kohler, e aos doze novos sargentos, cumprimentos de Sete Dias em Sociedade” (Correio do Norte*/SC, 27 jul. 1963).
A mesma notícia informou a presença, nas solenidades, do comandante-geral da Corporação, o coronel Antônio de Lara Ribas. Ilandir explica que, no período de encerramento do CFS, o comandante-geral da PMSC era o já citado coronel Lara Ribas e o chefe do Estado-Maior era o coronel Rui Stockler de Souza. “Não havia o cargo de subcomandante-geral”.
Na ocasião da formatura, o batalhão era comandado interinamente “pelo saudoso major Décio José do Lago, e respondia pelo subcomando o saudoso capitão Rogério Afonso Schmidt, diretor do CFS”. Foi o major Décio do Lago, inclusive, quem assinou o convite de formatura do CFS.
Após formar-se, por um breve período serviu na sede do 3º BPM. Pouco tempo depois, Ilandir foi classificado, juntamente com seu colega Rui Paulo Pereira, na 7ª Companhia Mista do 3º BPM (7ª/3º BPM), em Rio do Sul. Isso mostra a grande extensão territorial do batalhão na época. “Me apresentei no dia 12 de fevereiro de 1964, cujo comandante era o saudoso capitão Amaury Norberto Silva, tendo como subcomandante o saudoso primeiro-tenente Vinício Humberto Bazadona Dutra e como oficial subalterno o segundo-tenente Valmor Raimundo Machado”.
Aproximadamente um ano depois, “em 18 de fevereiro de 1965, fui designado e assumi o cargo de delegado de polícia e comandante do destacamento do município de Ascurra, divisa com Apiúna, Indaial e Timbó, no Vale do Itajaí”. Essa era uma característica bastante comum do período, em que os sargentos da Polícia Militar eram nomeados e exerciam a função de delegado de polícia, muitas vezes cumulada com a de comandante de destacamento, como foi o caso do veterano.
O militar traz um detalhe interessante: “O deslocamento de Rio do Sul para Ascurra (no Vale do Itajaí) foi de trem. A rodovia também era de chão batido”. Alguns meses depois, em 14 de setembro de 1965, a pedido do capitão Sestílio Ângelo Fransozi, comandante da 6ª Companhia de Polícia Destacada (6ªCPD/2ºBPM), Ilandir foi transferido para Herval d’Oeste, onde a companhia era sediada. Em Herval, “assumi o cargo de delegado de polícia”.
Em outubro de 1966, nova transferência. Agora, para a sede do 2º Batalhão de Polícia Militar (2ºBPM), em Chapecó. No dia 10 de janeiro de 1967, o veterano foi destacado para Dionísio Cerqueira, novamente, a pedido do capitão Sestílio, que comandava o destacamento e era delegado especial de polícia de fronteira.
Na delegacia, servia como escrivão ad hoc nos inquéritos instaurados. A função motivou até mesmo a participação em um curso intensivo para escrivão de polícia, ocorrido em Florianópolis, entre 1º e 30 de novembro de 1967.
Em 10 de fevereiro de 1970, já na graduação de segundo-sargento, obtida no final de 1969, “fui transferido, a pedido, para o município de Itapiranga, onde imediatamente assumi o comando do destacamento e delegacia de polícia”. Neste município, serviu por vários anos.
Em 1982, “frequentei o Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos (CAS), em Florianópolis, e ao concluí-lo fui promovido à graduação de primeiro-sargento por ser o segundo mais antigo. O primeiro da lista era o segundo-sargento Moacir Luiz, de Criciúma, que durante meu CFS em Canoinhas foi meu monitor”. Depois do CAS, reassumiu suas funções em Itapiranga.
No dia 1º de julho de 1984, “fui promovido à graduação de subtenente, permanecendo na ativa até o dia 31/07/1984 (um mês), quando fui transferido, a pedido, para a reserva remunerada”. Já no dia 1º de agosto de 1984, “transmiti o comando do destacamento e da delegacia de polícia ao primeiro-sargento Nelson Luiz Alovisi, oriundo da delegacia de polícia de Romelândia”.
Após uma trajetória profissional rica e cheia de experiências, e já na reserva remunerada, Ilandir passou a residir no então distrito de São João (hoje próspero município de São João do Oeste), para onde a esposa (professora) havia sido classificada. Recorda-se até mesmo da data: dia 1º de setembro de 1984. Na companhia do casal estava o filho Robson Ronald Sanvido de Barros Lima, adolescente à época. Desde então, o casal reside no município.
O veterano destaca que, em toda sua trajetória, permaneceu em quartel somente os 2 (dois) primeiros anos. Todo o tempo restante, “eu desempenhei a função dupla de policial militar e policial civil. Nenhum processo, nenhum indiciamento, nenhum risco de vida. Só agradecimento ao Criador”.
Retornando ao período de seu Curso de Formação, há algumas histórias pitorescas. Ele lembra-se de que, em certa ocasião, durante uma aula de educação física, a turma teve de praticar futebol americano com “bola oval e tudo”. O jogo, ou melhor, “o vale-tudo”, ocorreu na quadra de futebol de salão do quartel (ainda de grama), onde, atualmente, fica o fórum da Comarca de Canoinhas.
Em dado momento, “o aluno-sargento Nolasco corria em direção à nossa trave e, para evitar que anotasse o gol, eu o empurrei para fora da quadra e ele caiu em um desnível”. O resultado não foi dos mais felizes: “Não fez o gol, mas infelizmente fraturou o fêmur, frequentando o restante do curso sem praticar exercícios físicos, alojado num quarto contíguo à sala de aula”.
A condição do colega exigia cuidados especiais. “Eu e o Ilson éramos os que o assessoravam diariamente nesses deslocamentos quarto/sala/quarto, levando-o sentado numa cadeira enquanto ele segurava em nossos pescoços”. Durante as dores que sentia, não eram incomuns os xingamentos. “Tinha a dose de razão, mas poderia ser mais maleável com quem o atendia. Que nada! Passamos o restante do curso recebendo xingamentos do colega”, relembra com humor.
Em junho de 1963, portanto, no penúltimo mês de curso, os alunos-sargentos participaram de uma instrução no Campo de Instrução Marechal Hermes (C.I.M.H.), em Três Barras. O colega lesionado já andava com o apoio de muletas. “Bendita muleta, aliviou nosso calvário! Ele foi com a turma até o C.I.M.H., porém não participou dos exercícios”. Em meio à instrução, houve uma simulação em que ele figurou como um militar morto em combate e, portanto, tinha de ser carregado. O momento foi eternizado em uma fotografia.
Comentando a foto com o humor que lhe é característico, Ilandir menciona: “eu estava segurando as axilas do soldado Nolasco, ele se fingindo de morto e o Ilson segurando as patas (digo, os pés). Atrás do Ilson, o cabo Vitor Mendes; logo à direita, o soldado Bernardo Benomino da Silva (hoje major intendente reformado). Logo à direita, o soldado Alcides Pires, com cara de ‘Madalena arrependida’. Os demais não consegui identificar devido à qualidade da foto”.
Nessa mesma instrução, “que ocorria em meio a um frio intenso em que nem os dedos se juntavam para prestar continência”, ocorreu uma anedota bastante engraçada e que comicamente poderia ser intitulada “O Guerrilheiro Morto na Batalha de Três Barras”. O caso é o seguinte: houve uma simulação de guerra. A tropa foi dividida em duas frações: “uma de bandidos e outra de polícia”. As equipes tinham de ingressar no mato. Foram utilizadas até munições reais, mas não em direção aos “inimigos”.
Ao fim e ao cabo, ao ser dado o sinal, todos deveriam retornar ao “acampamento improvisado”. Os alunos foram chegando um a um, mas faltava “um guerrilheiro”. O tenente Nolasco aguardou certo tempo e determinou que todos retornassem “ao mato” para localizar o faltante e informá-lo de que a “guerra” havia terminado. Procura daqui, procura de lá, até que o “desaparecido” foi encontrado bem protegido: trepado em uma árvore de considerável porte!
Muito bem. Parte dos alunos ainda continuavam com as buscas e, não o encontrando, retornavam um a um. O instrutor, bastante irritado, determinou uma “simulação” como se o “desaparecido” tivesse sido encontrado morto. “Ao chegar ao acampamento, cada um vinha tirando a cobertura, fazendo o sinal da cruz e iniciando uma oração, tipo velório, até que o fato foi desvendado”.
A par das histórias engraçadas e típicas do período de curso, a turma recém-formada participou dos desfiles cívicos de setembro de 1963. Há algumas fotos da ocasião. Uma delas apresenta o pelotão desfilando em frente à praça Lauro Muller, na altura da Sociedade Beneficente Operária, comandada pelo segundo-tenente Dinoh Antônio Corte (que na década de 1980, no posto de tenente-coronel, comandou o 3º BPM).
Ainda no mesmo dia, mas em outro momento, a tropa está formada em frente ao estabelecimento “Impressora Ouro Verde Ltda.”, em que Ilandir e Ilson também aparecem.
Todas as histórias e experiências profissionais compõem o rico acervo de memórias que o veterano carrega. Dotado de grande espírito comunitário, após sua reserva remunerada, exerceu diversas atividades filantrópicas e voluntárias, a exemplo da fundação da APAE de São João do Oeste, além de ter sido membro da Federação das APAEs do Estado.
Emocionado, o veterano afirma: “Graças a Deus, o 3ºBPM foi a ‘salvação da lavoura’. Tenho verdadeiro carinho por esse batalhão: é a minha casa!” O subtenente Ilandir honrou sua farda e orgulha-se da brilhante carreira que desenvolveu na Polícia Militar catarinense, sendo o 3º BPM o “berço” de toda essa trajetória.